Confissão #3
Friday, February 29th, 2008Eu estou tentando falar menos sobre mim mesma e demonstrar algum interesse na vida dos outros. E eu sou realmente péssima nisso.
Eu estou tentando falar menos sobre mim mesma e demonstrar algum interesse na vida dos outros. E eu sou realmente péssima nisso.
Absolutamente nada pode me deprimir se eu tiver o brownie da minha mãe.
Então meu pai fala alguma coisa sobre a época em que ele dava aulas, e quando mudou de conceitos (A-E) para notas (10-0). E eu falo “Ah, eu gostava mais de notas. 10 é mais do que 8,5″.
Então meu pai fala sobre o sistema usado no Senai, no qual é possível tirar 10 sem acertar todos os itens de uma prova. E eu fico horrorizada, porque acertar 75% pode ser suficiente, mas não é 100%. Não é.
Então meu pai desencana de discutir isso porque ele acha uma coisa, eu acho outra e pronto. E eu não desencano muito, porque fiquei parecendo a aluna neurótica.
E, tá, eu até sou. Não gosto de matar aulas, não gosto de chegar atrasada, não gosto de perder prazos.
Mas é tão ruim gostar de quando eu tiro (ok, tirava) 10? Se o objetivo é ser suficiente, é só tirar 5. Mas acertar todos tem que ser mais do que acertar o suficiente.
E, poxa, eu nem sou tão aluna neurótica assim. Nunca passei muito tempo estudando, fazia dever de física ouvindo música e não fico lá muito concentrada enquanto outras pessoas estão falando.
Fora que não, eu não ficava comparando minhas notas por aí. Aliás, pessoas avulsas comparavam a nota comigo (e, bem feito, perdiam!).
Eu passei no mestrado por meio ponto. 7 era suficiente, mas 7,5 é mais que 7.
Eu ri quando li a manchete “Britânico morre após engasgar durante torneio de comer bolo” (matéria aqui). Candidato ao Darwin Awards!
Era uma vez uma língua que não gostava muito dos dentes. Ela queria se esparramar, sem aqueles limites brancos e duros. O problema é que, sempre que ela tentava brigar com eles, saí perdendo e cheia de mordidas.Então a língua criou um plano. Ela começou a empurrar os dentes, de pouquinho em pouquinho, para fora da boca…
Pois é, essa é a minha língua. O dentista disse que tenho a mordida aberta (os dentes de cima avançam mais do que deveriam), e que seria melhor que eu usasse aparelho (provavelmente fixo, provavelmente por uns dois anos, custando uns R$ 2200 no total). E que eu preciso fazer fono (já fiz quando tinha 5 anos, e depois quando eu tinha 18) para aprender a controlar a língua – que deve ficar “nessa almofadinha aqui no céu da boca”.
A língua de mais alguém fica batendo nos dentes? Eu preciso puxar ela para trás para colocar a coitada na tal almofadinha!
(Obviamente, eu fiz aquela careta de “como assim eu tenho que usar aparelho nessa idade???”, e o dentista respondeu: “olha, eu tenho uma paciente de 60 anos”. E tá, eu pensei “ah, mas aos 60 anos, o aparelho é a menor das preocupações dela…”.)
(fábula italiana, versão do Calvino)
Certo dia, um camponês descia para Biella. O tempo estava tão feio que quase não dava para andar pela estrada. Mas o camponês tinha um compromisso importante e continuava a caminhar de cabeça baixa, enfrentando a chuva e a tempestade.
Encontrou um velho que lhe disse:
– Bom dia! Aonde vai, bom homem, com tanta pressa?
– Para Biella – disse o camponês sem se deter.
– Poderia dizer ao menos: “se Deus quiser”.
O camponês parou, encarou o velho e contestou:
– Se Deus quiser, vou para Biella; e, se Deus não quiser, vou do mesmo jeito.
Ora, aconteceu que aquele velho era o Senhor.
– Então, você irá para Biella dentro de sete anos – disse-lhe. – Nesse ínterim, dê um mergulho naquele pântano e fique lá por sete anos.
E o camponês se transformou em rã de um só golpe, deu um salto e sumiu no pântano.
Passaram-se sete anos. O camponês saiu do pântano, virou homem, enfiou o chapéu na cabeça e retomou a estrada para o mercado.
Após alguns passos, eis de novo aquele velho.
– Aonde é que vai, bom homem?
– Para Biella.
– Poderia dizer: “se Deus quiser”.
– Se Deus quiser, melhor; caso contrário, já conheço as regras, e posso ir sozinho para o pântano.
E não houve jeito de arrancar nem mais uma palavra dele.
Conhecem o filme “Becoming Jane”? É sobre a Jane Austen e o semi-caso dela com o Thomas Lefroy (aka James McAvoy), mas com muitos momentos “vejam como ela se inspirou para escrever ‘Orgulho e Preconceito’”) e sem muita preocupação com o que aconteceu de verdade.
Enfim, a Jane Austen está toda apaixonada pelo James McAvoy, mas ele não pode casar com ela porque o tio dele (que é rico) não aprova a idéia, e ele depende do tio rico. Aí tem um pretendente alto (o James McAvoy parece ser bem baixinho) todo rico que quer casar com a Jane. Ele não é exatamente um James McAvoy, mas está todo apaixonado e tem uma casa e uma tia rica e não tem pais para atrapalhar. E não é completamente medonho.
Como eu já sabia, o caso da Jane com o James McAvoy não dá em nada. Ele se casa com alguém que o tio dele aprova e vira um juiz importante na Irlanda; ela escreve um monte de livros para meninas e morre solteira. Eu sabia que a Jane Austen não casava, nunca. Que até teve um pretendente, mas não foi o cara rico fictício.
Mas eu estava vendo o filme romântico sobre a escritora de livros românticos e tudo o que eu pensava era… “Jane, querida, casa logo com o cara rico antes que ele se canse”. O que isso diz sobre mim?
(Aí hoje eu estava voltando para casa e tinha um arco-íris no céu. Fazia séculos que eu não via um. E eu fiquei toda “oh, um arco-íris. Então filmes românticos estão perdendo o efeito, mas ilusões de óptica ainda me afetam. O que isso diz sobre mim?)
I never questioned whether or not I would draw pictures for a living. That much was always certain. The question was how I would make money doing it.
(Tirado de How to Learn to Stop Worrying and Love Your Job. O texto inteiro não me ajudou a me livrar da vontade de ter um paycheck, mas ler coisas otimistas é bom, de vez em quando.)
Não que eu entenda alguma coisa sobre ele.
Mas comecei a ler “Fábulas Italianas” (é, estou em fase “contos populares”) hoje. Queria um livro com historinhas, porque o da Warner era muita análise com uns poucos resumos das histórias. Enfim, o livro do Calvino é uma compilação de histórias populares italianas, traduzidas (a partir de dialetos) e retocadas por ele. Aí estava lendo a introdução (quase pulei!) e encontro este trecho:
… Trabalhei em material já reunido, publico em livros e revistas especializadas ou disponível em manuscritos inéditos de museus e bibliotecas. Não foi recolher pessoalmente as histórias no regaço das velhotas; e não porque não existam mais na Itália “lugares de conservação”, mas porque, com todas aquelas coletas dos folcloristas, sobretudo do século XIX, já dispunha de uma grande massa de material no qual trabalhar, e tentativas de coleta original talvez não trouxessem resultados apreciáveispara os objetivos do meu livro. E, além do mais, afinal de contas não é meu campo, é um trabalho que exige que se saiba fazê-lo, exige que se saiba ganhar a confiança do próximo, e eu já iniciaria com a prevenção de que as pessoas têm mais o que fazer do que me contar as fábulas.
Porque eu ando pensando (e pensando e pensando e pensando) que 1) Jornalismo é uma área enorme que engloba diversas carreiras ligadas a informação; 2) Reportagem é uma das carreiras englobadas no Jornalismo, mas as duas palavras não são sinônimos; 3) Reportagem é um trabalho que se divide em duas partes: a primeira é a coleta de informação das fontes; a segunda é a transmissão dessa informação para o receptor.
Eu ando pensando nisso porque eu gosto muito de jornalismo, mas nem tanto de reportagem. E eu gosto muito mais da segunda parte da reportagem do que da primeira. Isso pode ser uma questão de poder (na minha cabeça, o dono da informação está sempre em posição privilegiada), pode ser um sintoma de eu gostar mais de ser ouvida do que de ouvir (e quem não gosta?). Não vou analisar muito disso agora.
A questão é que coletar informações “é um trabalho que exige que se saiba fazê-lo”. E eu até entendo a teoria, mas a prática me dá muita dor de cabeça. E um dos motivos da dor de cabeça é que “as pessoas têm mais o que fazer do que me contar” o que eu preciso ouvir delas.
É um pouco irônico. Na reportagem, ouvir é a atividade invasiva. Já ser ouvido é passivo, depende do interesse do possível receptor.
(Mais ou menos relacionado: o Gustavo apontou que eu vivo criando blogs, mas não insisto para que as pessoas entrem, leiam, comentem. Ele disse que os sites são “uma prova da vontade de se comunicar”, mas que eu não me comunico “de fato”. O motivo de eu não ficar convidando? “A noção de que eu posso achar que eu sou um tema de simpósio, mas as outras pessoas não precisam se interessar”. Isso foi na madrugada da terça-feira.)
A promessa do livro é fazer uma análise sobre as influências trocadas entre sociedade e contos de fadas, destacando o papel feminino (como personagem e como contadora de histórias). A idéia é boa, e aposto que a Warner passou anos e anos pesquisando. Mas fica claro demais que ela passou anos e anos e anos pesquisando. São umas 47 páginas só de notas!
É claro, os comentários sobre Cinderellas e Rapunzéis são legais. Na hora que você percebe que todas essas histórias tinham tantas versões diferentes para cada lugar – e que eu só consigo pensar na versão Disney da coisa (adorava meu jogo de carimbos da Cinderella da Disney, com os ratinhos fofos e a carruagem-abóbora)… Bom, vocês entendem. Mas, sinceramente, eu queria uma versão (mais) pop deste livro!
Fora isso, é hora do momento “tudo sempre é sobre mim”. Ou tem a ver comigo. Ou pode ser aplicado a mim.
Na terça-feira, a Marcela me explicou que os trabalhos podem não ser legais agora, mas a gente precisas fazer tudo porque é só assim que se chega a uma situação melhor mais pra frente. O que faz sentido pelo que a gente ouve e conhece. Primeiro emprego sempre paga menos, depois os salários (em teoria) aumentam. Nos primeiros empregos, você é mandado por todo mundo – mas, eventualmente, começa a escalar a cadeia alimentar profissional. Acho que todo mundo concorda que isso faz muito sentido.
Mas ninguém se incomoda que a lógica da coisa é “Trabalhar mais para trabalhar menos”?
Simplificando muito, os contos de fadas trabalham com duas “morais da história”: 1) quem faz coisas erradas é punido (nas versões mais antigas e cruéis) e 2) quem sofre será recompensado. Eu sou super a favor de karma, acho que pessoas boas devem ter boas surpresas e pessoas ruins merecem mesmo voltar como mosca (se bem que eu sou a favor de karma, mas não ligo muito para reencarnação).
Mas parece que não basta simplesmente ser bom: é preciso passar por provações. A Cinderella não é simplesmente uma moça bondosa – ela é também explorada pela madrastá má. O príncipe não pode salvar a Bela Adormecida antes de cruzar espinhos e derrotar monstros. E a Pequena Sereia… bom, a Pequena Sereia sofre, sofre, sofre e ainda por cima morre (não na versão fofa da Disney, é claro).
Alguém mais liga pra isso?
Demorei uns 3 meses para terminar, interrompendo no meio para ler outros 3 livros mais curtos. Comecei a ler… tá, não sei bem qual foi o motivo. Acho que meu semestre na aula de Estigmas teve alguma coisa a ver com isso.