Não mata, não engorda e não afunda navios

Acho complicado traduzir ditados. Tipo “If you can’t stand the heat, get out of the kitchen” – faz sentido, pode ser explicado, mas não conheço um correspondente. Ninguém diz “Se não suporta o calor, cai fora da cozinha”. Ninguém diz.

Outro: “Loose lips sink ships” (devo admitir que os dois ditados que eu usei são de “Boondock Saints”). “Bocas grandes (ou línguas soltas?) afundam navios”. Não é só que a frase em português não existe – o ponto é que nós não temos referências fortes de guerras para ela soar natural.

Mas ontem eu esbarrei em um que tem tradução de verdade. E só então eu percebi que o ditado em português, apesar de ainda existir, não é mais adequado. A frase em questão era “What doesn’t kill you makes you stronger”.

Apareceu no final de “Desperate Housewives”. Estamos sem legenda nos programas da Sony (porque TV a cabo não é exatamente um serviço confiável), então fui explicar para a minha mãe mais ou menos o que tinha acontecido. Ela imediatamente fez a ligação: “O que não mata, engorda”. Pois é, o que não mata engorda. Aquilo que a gente fala quando o chocolate cai no chão e… bom, melhor não desperdiçar (desde que o chão esteja limpo e o contato tenha durado no máximo três segundos!).

Só que “O que não mata engorda” valia quando engordar era uma coisa boa. Aquele físico renascentista, sabem? Ou aquilo que a minha avó dizia: “Olha como ele está bonito, gordo”. Até algum momento do século passado, ter bastante recheio era uma coisa positiva. Atualmente, eu não quero que nada me mate – mas também não quero que nada me engorde. De repente, “O que não mata me deixa obeso”!

Mas convenhamos que “O que não mata me fortalece” não cola. Então a minha mãe sugeriu “O que não mata nutre”. Não é perfeito, mas pelo menos faz sentido neste tempo/espaço.

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