Do fundo do armário

Arrumar os armários é uma coisa que me deixa sentimental. Cansada, com dores nas costas e sentimental. Porque eu perco algum tempo relendo uma conversa de 2003 (provavelmente de alguma aula do Ed), passo meia hora tentando lembrar de quem era esse convite de aniversário de junho de 2000 (não consegui descobrir e joguei na pilha de recicláveis), releio redações das pastas de provas da época do colégio, encontro um chocolate vencido (joguei fora) e outro dentro da validade (guardei na cozinha) – porque meu armário é praticamente uma casa de alcoólatra, com garrafas de vodka escondidas debaixo da pia. Mas acho que vale mais a pena desenterrar uma história.

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Depois da morte da minha avó (mãe do meu pai), há uns cinco anos, as minhas tias fizeram a tradicional arrumação (encontrar novos lares para as panelas, doar as roupas, esvaziar as gavetas…). Sabe quando você vai arrumar o armário e decide tirar absolutamente tudo de dentro de todos os compartimentos? Basicamente, isso aconteceu pela casa toda.

Quando nós passamos lá, muita coisa já havia sido retirada, então a bagunça estava controlada. Mas ainda tinha coisa espalhada por todos os cômodos. Elas haviam separado algumas fotos e lembranças para o meu pai, e cada neto escolheu uma toalhinha de crochê que ela havia feito.

Aí estávamos meu irmão, minha irmã e eu em um dos cômodos. E dentro de uma caixa tinha… uma foto do Paul McCartney! Eu nunca tinha pensado na minha avó ouvindo Beatles. Meus pais têm idade de fãs dos Beatles, não os meus avós. E minha avó era um tanto quanto surda, morava em uma micro-cidade e, segundo o meu pai, só cantava (com as letras erradas) alguns sambas antigos, e olhe lá. Ou música religiosa.

Mas, por alguns segundos, eu realmente considerei a possibilidade da minha avó ter sido fã dos Beatles. E principalmente do Paul. Naquele momento, aquela fotinho 3×4 tinha o mesmo valor um pôster.

Algum tempo depois, o mistério foi resolvido. Achamos um chaveiro com porta-retratos daquele mesmo tamanho. A minha tia havia comprado de presente em alguma feirinha. E o chaveiro veio com a foto do Paul McCartney – que, afinal, nunca foi a paixão secreta da minha avó.

O chaveiro? O chaveiro estava com uma 3×4 do meu avô. Porque o meu avô era muito mais do que um ex-beatle bilionário. Ele, pelo menos, sabia escolher a esposa…

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