O que está acontecendo com as boybands?

Eu: Sabe que tá um momento estranho para boybands, né?
GusFalso: Como assim?
Eu: Assim o modelo ainda não entrou em falência.
Eu: Mas, atualmente, está mais baseado em revivals do que em novidades.
GusFalso: Nx Zero tá aí pra te provaro o contrário.
GusFalso: Tokio Hotel vai bem.
Eu: Mas não qualifica no modelo clássico.
GusFalso: Hahaha, mas o modelo clássico só faz sucesso para as pessoas que acham ele “clássico”.
GusFalso: Pra molecada, o modelo clássico é uma coisa ridícula.
(*conversa resumida)

Estou em uma semana NKOTB. Ouvindo “The Block” e cantando versos ótimos tipo “Back in the day when you were young (it was fun)”. Acho que eu sou neste momento o que a Naila foi em 2006, quando o Take That lançou “Beautiful World”.Mas, deixando toda a felicidade de lado… o que está acontecendo com as boybands? Primeiro, vamos tentar identificar o que é a boyband clássica:

  1. Boyband clássica não é aquela que a gente fala “they’re boys in a band”.
  2. Em português, boybands clássicas são chamadas de “grupos”, e não de “bandas”.
  3. Boybands clássicas podem até escrever algumas músicas (Gary Barlow, do TT, é um compositor relativamente respeitável), mas o sucesso dos singles está relacionado a produtores suecos.
  4. Boybands clássicas não fazem questão de tocar nada. De vez em quando, alguém pode até sentar ao piano para uma baladinha — mas nada de pagar de rock’n'roll stars.
  5. Como não estão segurando guitarras, os integrantes das boybands clássicas precisam de algum tipo de coreografia. A dança pode ser mais incrível (*NSYNC), um pouco patética (Boyzone, no clipe novo) ou se resumir a inclinar o microfone ao mesmo tempo, mas está lá.
  6. A aparência é muito importante em boybands clássicas. Você até pode falar que eles nem são lá grande coisa, mas não vai encontrar o gêmeo do Thom Yorke em uma delas.
  7. Músicas de boybands clássicas podem ser classificadas, basicamente, como “pop” (freqüentemente com alguma influência de R&B ou alguma tentativa de rap). As faixas intercalam baladas lentinhas e algumas músicas mais animadinhas.
  8. Integrantes de boybands clássicas (mesmo os que posam de bad boys) podem enfiar o pé na jaca de vez em quando, mas cada mancada mais grave é seguida de um pedido público de desculpas às fãs.

A boyband clássica é o modelo típico que surgiu nos anos 70 mas se popularizou e funcionou de verdade entre os anos 80 e os anos 90. Embora a busca pelas origens geralmente cheguem até Beatles e Jacksons, a inauguração do modelo (pelo menos de forma bem-sucedida) foi feita por New Edition (nos Estados Unidos) e Menudo (para a América Latina).

Os New Kids on the Block foram um dos principais nomes do período entre o fim dos anos 80 e o começo dos 90, levando a boyband até o público norte-americano branco. Até que tudo acabou em 1994, com o declínio da popularidade, os ataques de pânico de Jonathan Knight e provavelmente uma falta de vontade geral de passar mais tempo juntos.

Parecia que tinha acabado? Bom, não demorou muito e apareceram os Backstreet Boys. Aí demorou um pouco para emplacar nos EUA (será que ser “famoso na Alemanha” ajuda em alguma coisa), mas deu certo. Deu certo e deu origem a uma verdadeira fábrica com algumas crias bem-sucedidas (*NSYNC), algumas moderadas (O-Town, LFO) e tantas outras bem mais deprimentes (C-Note, LMNT…).

Já na Inglaterra, a primeira metade dos 90s foi do Take That, chegando ao fim em 1996 (quando Robbie Williams cansou de ser o fat dancer com alguma noção de bom comportamento). Isso não significou o declínio real do formato, já que o Boyzone, que surgiu um pouco depois do TT, seguiu em atividade até o final da década. A essa altura, o 5ive e o Westlife garantiam a sobrevivência das boybands, entre Blue, Another Level e outras tentativas.

(Vale lembrar que o Brasil tentou replicar o Menudo com coisas como Dominó e Polegar, e depois tentou pegar carona em BSB com Br’oz, Twister e… coisas ainda mais constrangedoras, como o GEM.)

Mas o pós-2000 foi menos generoso com as boybands. A carreira solo de Justin Timberlake matou o *NSYNC; o 5ive nem gerou carreiras solos de verdade, mas também acabou; o Westlife começou a fazer covers manjados para mulheres de meia idade; os Backstreet Boys perderam o Kevin Richardson…

O que surgiu nessa época? Com bem lembrou o Gustavo, as novas bandas preferidas adolescentes são NxZero, Tokio Hotel… ou Good Charlotte, sei lá. Se quiser, dá para tentar enquadrar Fall Out Boy e até Panic at the Disco nessa história. A versão britânica da coisa estava mais para Busted (que já acabou) e McFly (que agora é indie!). E eu gostaria de incluir Jonas Brothers nessa lista, mesmo que eles sejam muito mais Hanson do que qualquer outra coisa (e Hanson não cumpre os critérios de boybands clássicas).

Uma coisa dessa nova lista é que essas pessoas seguram instrumentos e escrevem músicas (não vou questionar a qualidade de ninguém neste momento). Será que isso é uma busca por credibilidade? Será o fim de grupos que cantam música pop e não tocam nada? Sinceramente, acho que não. A indústria de grupos vocais continua indo muito bem, mas agora se concentra em girlbands. Deixando o revival de Spice Girls de lado, temos Girls Aloud e Sugababes de um lado, Pussycat Dolls de outro.

A minha pergunta, então, não é “o que é que os adolescentes estão comprando?”. Também não é “o pop chiclete chegou ao fim?”. A minha pergunta é: “ainda existe lugar para as boybands clássicas?”.

Olhando bem, dá pra ver que ainda existem algumas tentativas (como o Billiam). Mas as coisas novas não estão mais dando certo (novamente: Billiam). O que está dando certo são os revivals. Take That foi tão bem na turnê de reunião que lançou álbum novo em 2006 e continua trabalhando — com eventuais elogios. Boyzone está de volta, com dancinhas bem desencontradas e uma música que parece mais um single solo do Ronan Keating. 5ive tentou voltar (desistiu). Westlife ainda faz regravações ultra-românticas/cafonas. Backstreet Boys, agora sem Kevin, preparam mais um álbum (e o último até que foi bom). Um reality-show norte-americano selecionou novos menudos. E New Kids on the Block estão de volta, com álbum e turnê. De repente, surge o termo manband. Manband!

Manbands indicam que o público das boybands em 2008 é o público de boybands em 1998 e 1988. Temos 25 anos, ou 35 anos.

O formato de boyband clássica tem uns 30 anos de história. Mas os últimos 5 anos acenderam luzes vermelhas do tipo “preocupações demográficas em países europeus”. A continuidade do formato de boyband clássica depende de um grupo novo surgir entre as fãs de 15 anos. Será que  o Avenue dá conta?

Comentários

Comentar