Lost in translation: japonês

Meu avô estava na minha casa, pensando que quer muito ir embora. Quando alguém finalmente percebe e oferece a carona, ele sai apressadamente da minha casa (o mais rápido que os pés de 90 anos e com joanete permitem) e espera ansiosamente ao lado do carro. Minha irmã, percebendo isso, imagina (provavelmente com razão) que meu avô quer mesmo é ir ao banheiro, e que ele prefere usar o dele (banheiro de casa é melhor do que todos os outros). Então ela sai correndo atrás dele perguntar se ele quer usar o banheiro.

O problema? O problema é que meu avô é japonês. Ele adora caipirinha, torce para o Brasil em qualquer esporte e passou mais de sete décadas por aqui, mas ele é oditchan e fala um híbrido estranho de português com japonês. Minha avó (obatchan) começava a anotar receitas em português (“bolo de cenoula”) e depois desencanava e completava em japonês mesmo. Enfim.

Voltando à minha irmã e ao meu avô… bom, ela resolveu perguntar pra ele se ele queria usar o banheiro. Aí ela repetia (bem alto, porque ele é meio surdo) “Obento? Obento?”. O problema? O problema é que “obento” é a marmita. O banheiro é o “benjo”. A torcida é que meu avô seja realmente surdo — e não tenha entendido nada.

(Sinceramente, não sei soletrar nenhuma dessas palavras.)

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