O prazer de sua ausência

Nem preciso repetir isso em voz alta, mas tenho sérios problemas em relações sociais. Em uma mistura de falta de noção com falta de consideração, eu já atendi a campainha dizendo “Não”, que era basicamente a resposta para qualquer pergunta possível naquela situação*. Também fiz uma avó perguntar, preocupada, se eu não gostava dela (ela perguntou para os meus pais, não para mim). Enfim, sérios problemas em relações sociais.

Considerando os antecedentes, eu já nem deveria ter mais convites para fazer nada. Só que minha família é bem família, e meus pais têm muitos amigos. Aí, de tempos em tempos, aparece algum compromisso que me inclui no convite. O meu lado sem noção e sem consideração preferia decidir se vai ou não aceitar o convite de acordo com a probabilidade do evento ser legal. Maaaaas o meu lado mais educado (sim, existe um) anda me forçando a fazer coisas tipo comer um pedaço de um bolo que eu odeio e comprimentar as pessoas com contatos físicos nem tão agradáveis assim. E acho que acabei desenvolvendo um manual mental sobre quais convites eu preciso aceitar – e quais eventos eu posso evitar.

Festas de final de ano em família

Praticamente irrecusável. Os quatro dias já estão marcados para sempre, e a ausência só é permitida se eu estiver realmente longe ou com alguma doença muito contagiosa.

Festas de final de ano com qualquer outra pessoa

Os quatro dias de festas já estão ocupados e não posso aceitar outros compromissos. Entre as demais confraternizações, a festa do bonde já é tradição. Posso faltas nas outras dizendo que “estou muito muito ocupada. Vocês sabem como é dezembro, né?”. Se existir qualquer conversa sobre amigo-secreto, prefiro fingir que não estou ouvindo nada.

Aniversários de parentes de primeiro grau

Irrecusáveis, exceto nos seguintes casos:

  • Eu já tinha marcado uma coisa antes… (raro, mas acontece)
  • Eu estou doente ou viajando. Se tenho trabalho para fazer ou coisas para estudar, é melhor se oferecer para ficar um pouco e ir embora mais cedo.
  • Eu não tenho como chegar lá. Se eu realmente não quiser ir, posso recusar ofertas de carona porque “não quero dar trabalho”.
  • É em restaurante/bar/balada e mais de 50% dos convidados não fazem parte da minha família.

Casamentos e aniversários de casamento de parentes de primeiro grau

A ausência só pode ser justificada por doença contagiosa. Gripe, febre, dor de cabeça, excesso de trabalho, outros compromissos não servem.

Aniversários de amigos meus

Seria melhor ir, mas não vou em boa parte alegando “dificuldade de locomoção”. É importante entender que não devo ir e ficar de mau humor.

Aniversários, casamentos, aniversários de casamento de amigos de outras pessoas

Amigos dos meus irmãos e dos meus pais insistem em me convidar para eventos. Posso evitar os aniversários, mesmo os de datas redondas. Nos casos de “família estendida” (in-laws dos meus irmãos), sigo a resolução coletiva (se meus pais vão, acompanho). Casamentos e bodas de pérola/prata/ouro dependem de uma análise sincera sobre a minha relação com as pessoas (e não a amizade das famílias com os meus pais). Eventuais bodas de diamantes não terão desculpas.

Eventos sem motivos

Não há obrigatoriedade. Se a pessoa que está organizando é mais próxima, devo tentar aparecer. Mas posso recusar se o programa for muito ruim**.

Eventos de amigos de amigos

Já fiz, não pretendo fazer de novo. Não preciso dar explicações se estou sendo convidada por outros convidados.

Viagens com qualquer pessoa

Perfeitamente recusáveis, mesmo sem justificativas.

Visitas específicas para mim

Atendo, faço uma sala meio mais-ou-menos, tento lembrar o que tem de snacks.

Visitas de parentes

Não preciso ficar na sala, mas tenho que dar uma passadinha para falar ‘oi’. Pelo menos.

Visitas de amigos, conhecidos e pessoas que não vieram me ver

Nunca ficar de pijama se tiver alguém em casa. Se souberem o meu nome, passo para falar ‘oi’. Se não, posso continuar vendo TV.


* Sobre a história do “Não”: eram amigos dos meus irmãos. As perguntas possíveis:
- O Lauro está? – Não.
- A Leda está? – Não.
- Ahn você quer substituir seus irmãos e fazer qualquer coisa? – Não.

** Quando o São Paulo foi campeão, minha irmã decidiu passar na casa do meu avô ver se ele “estava feliz”. É claro que ele estava feliz. Ele é são-paulino e provavelmente já tinha bebido alguma coisa depois do jogo. Mas a minha irmã foi mesmo assim e ficou por lá durante horas porque outros dois tios meus foram fazer o mesmo. Eu? Eu fiquei em casa, obrigada.

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