… e então Mr. Darcy disparou atrás de Mr. Wickham pelas ruas estreitas de Londres

Uns anos atrás, saiu uma pesquisa feita pelo eBay sobre quais eram os filmes preferidos dos homens e quais eram os filmes preferidos das mulheres. Cada lista tinha 20 títulos — e absolutamente nada coincidia. Para se ter uma idéia, vamos aos cinco primeiros de cada ranking:

Mulheres

  1. Grease – Nos Tempos da Brilhantina
  2. A Noviça Rebelde
  3. Dirty Dancing – Ritmo Quente
  4. Uma Linda Mulher
  5. Top Gun – Ases Indomáveis

Homens

  1. Guerra nas Estrelas – Uma Nova Esperança
  2. Guerra nas Estrelas – O Império Contra-Ataca
  3. A Vida de Brian
  4. Aliens
  5. 007 Contra Goldfinger

Eu me lembro bem dessa lista por vários motivos. O primeiro… bom, na época, eu republiquei a lista como parte do meu trabalho. Não me olhe assim. Era um assunto divertido. O segundo… olha, eu já fui usada pela minha irmã para assistir chick-flicks (tipo “Music and Lyrics”) com ela, enquanto o namorado dela prefere ver filmes sérios, Woody Allen e qualquer coisa menos divertida (que, infelizmente, não envolve explosões, robôs assassinos ou som no espaço). O terceiro é que eu meio que me identifiquei bastante com a lista masculina. “Grease” contra “Star Wars”? Não tenho a menor dúvida!

Isso não significa que eu não goste de filmes de meninas. Acho que “Sleepless in Seattle” é ótimo, mesmo que ele não esteja na lista. Da lista das mulheres do eBay, aliás, meu favorito é… “O Clube dos Cinco”. Definitivamente. Enfim. A questão é que eu gosto de filmes para mulheres, mas discordo dessa lista do eBay. Já a lista dos homens… começa com dois “Star Wars”. E da trilogia clássica, claro. Ainda tem coisas bacaas tipo “Terminator”, “Blade Runner” e “Bourne”, e mais um monte de 007s. Enfim. São filmes bem mais divertidos.

Mas eu não ia falar disso.

Eu ia falar de… Jane Austen.

Porque eu acho que eu tenho algum direito de falar de Jane Austen – apesar de discussões esquisitas com estranhos neste site. Eu li todos os romances completos (“Sense and Sensibility”, “Pride and Prejudice”, “Mansfield Park”, “Emma”, “Northanger Abbey” e “Persuasion”). Em inglês (também li “S+S”, “P+P” e “Emma em português). E assisti milhares de versões de “Emma” em filme — a versão da Kate Beckinsale, a versão da Gwyneth Paltrow, a versão da Alicia Silverstone (aka “Clueless”). E aquela versão cinematográfica de “S+S” com a Emma Thompson sendo muito velha para interpretar a Elinor (e o Hugh Grant chatíssimo perdendo feio para o Alan Rickman). E as tantas versões de “P+P” — minissérie da BBC (aquela com o Colin Firth), filme com a Keira Knightley, comédia romântica mórmon (sim, mórmon!) e… bom, “Bridget Jones”. Como bônus, eu ainda li “Lady Susan” (epistolar, considerado inacabado) e assisti “Becoming Jane” e “The Jane Austen Book Club”. Poxa vida, eu posso sim falar de Jane Austen.

E o que eu ia falar é que ontem eu peguei o pedaço final de “Pride and Prejudice” versão Keira Knightley… e acho que compreendi a aversão masculina a esse tipo de filme. Tudo bem, eu entendo perfeitamente que, se a minissérie da BBC foi ultrafiel ao livro em 6 horas, seria impossível que o filme desse conta das mesmas coisas em 2 horas e pouco (sério que isso dura 2 horas e pouco?!). Mas o negócio é apressado mesmo.

Perdemos minutos preciosos vendo estátuas nuas que não têm lá muito a ver com a idéia de Mr. Darcy. E aí corremos muito com o drama do não-casamento da Lydia. A cena em que a Keira Knightley recebe a carta da Jane e dá aquele soluço? Simplesmente hilária. De verdade. Eu comecei a rir sozinha meia-noite e alguma coisa. E quando o Mr. Darcy se declara pela segunda vez e solta aquele “love, love, love you” — e a Keira Knightley ainda responde “Your hands are cold”. Your hands are cold! Srsly!

Mas acho que quem mais perde foi o Mr. Bennet. Ele era divertidíssimo e cínico, e ficou… um velhinho semi-simpático. Quando a Keira Knightley conta que o Mr. Darcy consertou o casamento da Lydia, a reação dele é completamente diferente, entre livro e filme:

Livro: “And so, Darcy did every thing: made up the match, gave the money, paid the fellow’s debts, and got him his commission! So much the better. It will save me a world of trouble and economy. Had it been your uncle’s doing, I must and would have paid him; but these violent young lovers carry every thing their own way. I shall offer to pay him to-morrow; he will rant and storm about his love for you, and there will be an end of the matter.”

Filme: “I must pay him back”

“I must pay him back” (rosto solene). É até constrangedor ver o pai do Jack Bauer falando uma coisa dessas.

Não estou dizendo que existe uma forma de transformar “Pride + Prejudice” em alguma coisa mais… man-friendly. Mas será que precisava ser ainda mais piegas que um romance do século XVIII? Jane Austen escrevia para mulheres, mas tinha mais humor e era bem mais… sharp que isso.

Não estou dizendo que o seu namorado assistiria “P+P” com você se os diálogos fossem melhores. Mas estamos aceitando falas absolutamente horríveis e personagens sem graça, de “Uma Linda Mulher” a “P+P”. E nem ganhamos uma explosão ou uma perseguição em alta velocidade para compensar nosso tempo.

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