O jornalismo online inverteu a idéia de gatekeeper?
Por causa de uma certa mudança na minha pesquisa de mestrado, estou lendo mais uma vez o “Teorias das comunicações de Massa” (Wolf). Que, aliás, está fazendo muito mais sentido graças à tal mudança na pesquisa de mestrado.
Enfim.
Cheguei na parte que fala sobre gatekeepers. Alguma coisa sobre a idéia de que a transmissão de uma informação pode ser “autorizada” ou interrompida por um indivíduo/grupo da mídia. Porque obviamente felizmente nem todo release vira notícia. Aí tem um trechinho assim:
A pesquisa de White mostre que, “das 1.333 explicações de recusa de uma notícia, quase 800 a atribuíam à falta de espaço, e cerca de 300 citavam a sobreposição com histórias já selecionadas ou a falta de interesse jornalístico ou de qualidade de escrita. Outros 76 casos se referiam a eventos em áreas muito distantes do jornal e, portanto, presumivelmente sem interesse para o leitor [...]. Estatisticamente, essas normas profissionais excedem a distorção subjetiva no que concerne às explicações fornecidas pelo jornalista e relatadas por White” (Hirsch, 1997, p.22). Pesquisas posteriores também confirmaram que, na seleção e no filtro das notícias, as normas ocupacionais, profissionais e organizacionais parecem mais fortes do que as preferências pessoais. (Wolf, 2008:185)
Bom. Vamos pensar que existem N histórias circulando em um dia, sejam elas notícias da sua redação, notas de agências, fofocas de sites de qualidade duvidosa, bizarrices tabloideanas, releases medonhos e qualquer outra variedade que eu esqueci de citar. Dessas N, um número X não serão publicadas pelo veículo.
Aí temos X histórias rejeitadas. 60% dos casos de rejeição se devem… à falta de papel! É uma quantidade razoável de histórias vetadas porque não tem espaço na página. Aí chegamos na maravilha/tragédia do jornalismo online e… bom, cabe mais uma notícia. Aliás, cabem mais duas ou três ou quatro. Vamos combinar: cabem muitas, então precisamos necessariamente publicar no mínimo umas vinte e oito (ou qualquer outro número que agrade) todos os dias. Não me interessa se absolutamente nada de relevante aconteceu. Eu quero vinte e oito notas neste domingo depois do Natal, ok?
Ok. E aí temos coisas como… aquela nota da Mariah Carey, que eu comentei no final do ano passado.
E, já que precisamos de vinte e oito (ou qualquer outro número arbitrário) notícias hoje e absolutamente nada aconteceu de novo, podemos nos concentrar na… repercussão do caso no Orkut. Ou no novo capítulo de “Amy Winehouse no Caribe”, que é meio parecido com o capítulo de três dias atrás. Ou aquela reportagem sobre o Google Ocean [não] descobrindo a Atlântida.
Finalmente, graças aos incríveis avanços da internet e ao nosso interminável interesse por qualquer coisa, não existe mais essa de “muito longe”. Eu posso sim estar interessada no gatinho que rouba bichos de pelúcia em uma vizinhança da Inglaterra (que saiu no G1, que repete metade do Daily Mail na seção “Planeta Bizarro”). Aliás, eu li essa matéria, fui até o Mail para abrir as fotos maiores e fiquei pensando “gatinho fooofo”.
Enfim.
De repente, não existem mais motivos para interromper o caminho de uma notícia. Aliás, existem incentivos para abrir o caminho. O jornalismo online inverteu a idéia de gatekeeper? Talvez a pergunta certa seja “E o que ainda é vetado – é vetado por quê?“.
Procurar
Ficha Técnica
Arquivo
Twitter
Categorias
Tags
Links
Feed

