Deve ser importante reforçar suas diferenças com os seus pais

Meu pai recebeu a tradicional carta-boleto da Folha para você, assinante que quer comprar nossa nova estratégia anabolizante com uma coleção de filmes velhos clássicos em DVD. Muito educado, meu pai resolve perguntar para a minha mãe se ela se interessa. O que dá início a um discurso sobre como ela nem desempacotou a trilogia Bourne que veio com o Chivas (embora assista Bourne em todas as ocasiões que passa por qualquer um deles na TV a cabo).

O discurso foi tradicionalmente cortado pelo meu “tudo bem, mãe, não é preciso se exaltar” (ela, como sempre, respondeu que não está exaltada — a voz dela só sai assim).

Por algum motivo, meus pais insistiram em continuar falando sobre a coleção de filmes que eles não vão comprar. Desta vez, o meu pai sugeriu comprar na banca, avulso, um ou outro filme que eles gostem. “Por exemplo, o Casablanca, que é muito bom”.

Eu nunca vi meu pai assistindo Casablanca, ever — e eu já tive a oportunidade de presenciar meu pai enfrentando Ben Hur, El Cid e até aquele The Messenger, com o Kevin Costner. Mas isso foi faz uns anos. Ultimamente, anda difícil de acreditar que ele tenha assistido a um episódio de uma hora sem dormir. Então eu não resisti e perguntei: “Mas você tem planos de assistir Casablanca nos próximos cinco anos?”

(Refletindo sobre isso, eu percebo que essa pergunta muito vai me custar uma tarde do meu pai assistindo Casablanca no DVD.)

Meu pai desviou da resposta Sim/Não e decidiu falar que “Mas é um filme muito bom mesmo. Você já assistiu?”. Olha, não. “Pois deveria. É muito bom”.

(A essa altura eu já ouvi que Casablanca é um filme muito bom. Três vezes. Fora todas as críticas e referências de uma vida inteira não vivendo em uma bolha. Não é que eu duvide da sua palavra, mas eu estou comprometida com meu esforço enorme nem tão grande assim para evitar os clássicos e vencedores de Oscar em geral.)

Eu tenho plena confiança de que meu pai gosta de mim, que meu pai só quer o melhor para mim. Por isso, eu concluo que, se ele está recomendando Casablanca, é porque acha que é um bom filme.

Então eu digo exatamente isso — e ainda acrescento que “eu só recomendei para você as coisas que eu acho muito boas” (a parte “e nem por isso você assistiu Buffy comigo” fica subentendida).

E o meu pai? Meu pai responde que “É, mas não sou só eu que recomendo Casablanca“.

Sim, minha capacidade de escolher produtos de entretenimento está sendo questionada por uma pessoa que assistiu um épico do Kevin Costner.

Comentar