O sonho do blog famoso

Ano passado, comentei que a carreira de jornalismo tinha 2179 candidatos na Fuvest. Falei que isso era preocupante, mas nunca disse que isso era surpresa. Por algum motivo, ano após ano, a relação candidato/vaga é ridiculamente alta em carreiras como jornalismo, publicidade e audiovisual.

Entre as reclamações que eu ouço, as buscas (alheias) por emprego, os amigos que mudaram de carreira (ou que ensaiam mudanças de carreira, ou que, como eu, nunca foram jornalistas mesmo) e os jornais fechados em época de crise, eu sempre fico imaginando o que é que essas 2179 pessoas queriam.

Aí eu cheguei em um texto que na verdade fala sobre a necessidade da faculdade de jornalismo (ainda estou adiando a discussão sobre o diploma), mas que traz uma frase curiosa:

When I ask aspiring journalists where they want to be in ten or twenty years, not a single one says The New York Times or The Wall Street Journal. They want to have a famous blog. Some already do.

O que me fez pensar em algumas coisas. A primeira, obviamente, é que eu queria saber se essas pessoas também criticariam o Tas por causa daquele contrato com a Telefônica (entre todas as empresas do mundo!). Porque, afinal de contas, o seu blog famoso vai precisar pagar as suas contas de algum jeito.

Mas o exemplo do Tas reforça uma outra coisa: blogueiros famosos não são mais famoso porque são blogueiros. Eles são famosos por outra coisa, eles são reforçados por um outro veículo. A força do blog deles vêm de um contrato com uma revista. É como seguir a Lily Allen pelo Twitter, e não uma outra pessoa qualquer que também nunca te viu na vida.

Ontem à noite, tentei entrar em alguns blogs que eu conhecia cinco anos atrás. Muitas visitas, muitos comentários. Eram pequenas celebridades de um cantinho da internet.

Cinco anos depois, esses sites não existem mais. Essas pessoas não podem mais ser rastreadas até um site em funcionamento. Acabou.

Alguém vai me dizer que a internet ainda produz suas pequenas celebridades. Um qualquer que conseguiu N views em seu vídeo constrangedor no YouTube. Aquela flogueira argentina ou sei lá quem mais.

Mas acho que existem duas diferenças. A primeira é que ninguém dá a mínima para você, pessoa qualquer com o vídeo constrangedor. Rimos de você e mandamos o link para os nosso amigos, assim como apontávamos o dedo para o loser da escola que tinha meleca no nariz.

A segunda é que, agora, o “blogueiro famoso” é apresentado como “estava naquela lista da revista Época”. Já aquelas pessoas de cinco anos atrás eram conhecidas como “fulano do xis.nu”. Uma lógica contrária.

De certa forma, o xis.nu acabava ganhando um valor (em escala reduzida) do CQC, da Veja, da MTV. Se o “fulano do xis.nu” linkava alguma coisa, era um certificado de qualidade para essa coisa. Se o “fulano do xis.nu” estava ouvindo uma banda ipsilon, as pessoas que visitavam o site iam acabar virando fãs da banda ipsilon. Acompanhar e comentar um blog era menos random, era um investimento de tempo maior. Semanas, meses, até anos.

Mas ainda são menos do que cinco anos.

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