O que é que o Simon Cowell diria?
Ninguém pensa grande coisa sobre “jornalismo de internet” (aquele que é feito via internet, não aquele que é feito para a internet). Imagino que repórter antigo, que já via problemas no “jornalismo de telefone”, deve odiar. Mandar “bater perna”.
Também acho um porre pseudo-reportagens sobre “repercussão no Orkut”. Mas a questão é que tem certos limites para bater perna. E tem situações em que bater perna não ia adiantar nada.
Se o objetivo é a cobertura de um evento, é mais adequado que você vá bater perna no tal evento. Mas se você vai falar sobre o Last.fm, o Last.fm é melhor lugar para achar usuários.
Mas não era bem sobre isso que eu ia falar. Eu ia falar sobre uma reportagem que saiu na Veja (li no site): “Rabugento e poderoso”. O texto usa a Susan Boyle para falar sobre o Simon Cowell, o produtor musical que dispensa apresentações para quem assiste American Idol.
A matéria é “jornalismo de internet” puro. Cita declarações do Obama “numa entrevista recente”, fala sobre a quantidade de exibições do vídeo da Susan Boyle no YouTube, resume a trajetória profissional do Simon Cowell. Não tem uma declaração exclusiva de ninguém, nem tenta fingir com uma frase de fã ou uma análise de um especialista.
Esse tipo de pesquisa parece muito o que você fazia como trabalho de escola — você separa fontes de pesquisa (livros/sites), lê um pouco, escolhe o que acha mais importante e junta tudo em um texto. Jornalismo de internet.
Eu, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Acho que a frase de fã e a análise do especialista não trariam nenhuma contribuição real para o caso. Para falar a verdade, acho que nem adiantava tentar falar com o Simon Cowell nisso (se eu tivesse um nome como a Veja para usar, podia tentar ouvir um “indulgent rubbish” pelo telefone só pelo lado hilário da situação).
O único problema que eu tenho com o jornalismo de internet é quando a pesquisa é ruim. Quando você cai em piadas, quando você cita jornais que não merecem. Se você não tem como confirmar a informação pessoalmente, faça o favor de verificar. Cruze dados entre jornais, faça uma pesquisa.
O problema que eu tenho com o texto da Veja sobre o Simon Cowell aparece no final, quando comentam que ele está considerando não renovar o contrato de “Idol”.
Nem mesmo a estafa mais profunda deve tornar fácil a decisão de abdicar da dinheirama de 36 milhões de dólares. Mas Cowell deve ter feito as contas. Seu contrato com a Fox impede que ele venda uma versão do Britain’s Got Talent (que já está em quarenta países) nos Estados Unidos. Desfeito o vínculo com a emissora, ele ganharia liberdade para levar ao país o seu próprio show.
O que o contrato do Simon Cowell com a Fox impede é que ele seja jurado de outro programa. Só. O America’s Got Talent? Já existe. Um dos jurados, o Piers Morgan, participa tanto da versão britânica quanto da norte-americana. Já passou até no canal Sony. Até minha mãe lembra que tinha um programa de calouros com o cara de Baywatch. Sinceramente…
O problema de jornalismo de internet não é que ele seja inferior ao de bater perna ou ao de telefone. O problema do jornalismo de internet é o mesmo de qualquer outro tipo de apuração — é não ser feito com cuidado.
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