O livro histórico de receitas da família
Minha mãe vive dizendo que meu pai precisa ir na casa do irmão (mais novo) dele para juntarem as histórias da família — “antes que vocês esqueçam tudo”. Geralmente eu digo que meu pai deveria ir para a casa do meu tio para intercalar caipirinha, frituras e cervejas, e aproveitar para cantar um pouco.
Enfim.
A ideia da minha mãe inclui uma ajuda minha. Ela jura que eu vou editar tudo aquilo que o meu pai e meu tio (em estados já alegres demais) falarem em um gravador. Tipo, não.
O que eu quero editar é a minha ideia de livro da família. É um livro de receitas. Estou tentando convencer minha mãe a escrever a receita de tudo o que ela cozinha — incluindo arroz, bife e um creme de curry com carne moída, batata e cenoura que deve ter um nome de verdade, mas que nós chamamos de “carecô”. Ah, sim, o livro deve incluir listas de frutas, legumes e outros vegetais, informando 1) é preciso cozinhar? 2) é melhor cru ou cozido? 3) precisa descascar? e outros dados úteis.
O livro, se minha mãe colaborar (e escrever tudo antes que esqueça das receitas), será devidamente copiado para minha irmã e meu irmão, como parte da herança familiar. E ele será muito mais significativo do que qualquer história de família porque 1) minha família é basicamente baseada em comida e 2) as receitas serão acompanhadas de historinhas bonitinhas (como o “bolo de cenoula” da minha avó japonesa).
Quem já comeu em casa sabe da importância de salvar a cozinha da minha mãe.
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