Sim, eu vou deixar o papel para trás
A minha peregrinação da quinta-feira tinha a ver com uma visita ao Destak para falar com o editor. Que tem a ver com um trabalho de uma aula da pós (que eu faço como ouvinte, mas enfim).
Não vou tentar dividir o que foi dito porque ainda nem começamos a análise e não faria muito sentido. Mas, em algum ponto lá pelo final, rolou uma certa discussão sobre o jornal digital. Aquele do papel eletrônico flexível. A opinião do editor era: não vai acontecer na vida dele.
Eu discordei. Vai acontecer na minha vida. E não é só porque eu sou vinte anos mais nova (ié!). É porque já está acontecendo.
Eu lembrei de escrever isso porque estava lendo uma tradução do NYT no Terra sobre o Kindle. E eu morro de vontade de ter um Kindle. Eu nem me considero ridiculamente fissurada em gadgets (não tenho um iPod, apesar de ter mp3 player desde 2005, e meu celular é de 2002), mas o Kindle é o tipo de coisa que eu compraria se existisse um serviço (com preços razoáveis) por aqui.
Existem vantagens demais no formato. Vantagens que superam o fetiche do papel. A primeira é o peso — o Kindle 2 pesa 289 gramas. É mais do que o “Visual Function” do Mijksenaar. Mas o “Pensar com Tipos”, da Lupton, é um livrinho absurdamente pesado para o tamanho dele (couché 150). Agora imagina carregar o livro da Lupton (vale lembrar que já começam a aparecer leitores com display colorido), aquele livro do Tufte que estava comigo na quinta, o do Wurman, aquele de comunicação visual do autor suíço e o de narratologia. Já ultrapassou 289 gramas — faz tempo.
Outra vantagem: procurar aquela passagem do livro. Os índices remissivos não dão conta de tudo — e nem todos os livros têm. Sabe como eu faço, atualmente? Eu rezo para o livro estar no Google Books, com visualização parcial. Aí eu faço a busca por ali, e ele me mostra a página em que está. É claro que varia um pouco de edição para edição, mas fica um pouco mais fácil. Não seria muito melhor se o livro já tivesse a busca embutida?
Aí tem a vantagem de quem precisa de livros importados. Lojas virtuais pedem 4, 6, 8, DOZE semanas para entregar. Minha encomenda no Alibris pede 3-4 semanas, mas eu paguei mais pelo frete do que pelos livros (livros de US$ 1,99 e frete padrão de US$12,90). Se o formato é digital, não preciso esperar e nem pagar a entrega.
Fora isso, não precisa de estante e não é alvo de traças. Dá para fazer marcações e depois apagar. Meu fetiche de papel morreu faz tempo.
Mas vamos passar isso para jornais. O Kindle já tem certo acesso a jornais e até alguns blogs, via rede sem fio. Se o serviço amplia, você troca a sua assinatura da FSP, do Estado, etc por assinaturas digitais e anda com tudo ao mesmo tempo. E ainda pode fazer buscas. E ainda pode ser atualizado.
Problema? Ler na tela pode ser um problema — mas esses leitores são mais confortáveis que a tela do computador. O tamanho da tela pode ser um problema — mas a lógica da página do jornalão existe porque existe o jornalão; eu, sinceramente, ando tão habituada com o online que nem sinto falta do jornal me dizendo o que é mais importante.
O preço é um problema. O Kindle custa US$ 359, o colorido da Fujitsu custa em torno de mil dólares. Sim, é caro. Por enquanto, só vale se você ama gadgets, lê bastante e tem dinheiro sobrando.
Mas é assim que começa. Há menos de 7 anos, paguei R$ 429 por um celular que não tem display colorido, que tem toque monofônico e nem dobra. Há pouco mais de 4 anos, paguei uns R$ 700 por um tocador de música de 128 Mb.
É assim que começa — pessoas começam a comprar, os produtos se desenvolvem e ainda ficam mais baratos. Pensa no que o CrunchPad pode significar.
Ainda será mais caro que o jornal de papel. Mais caro que o jornal que distribuem para você no cruzamento. Mas vamos pensar no sistema de assinatura. Igual contrato de celular — você assina o conteúdo digital de uma editora e eles subsidiam o seu jornal digital. Que você poderá usar para ler outras coisas.
Vai acontecer na minha vida.
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Estou com o livro do Lage (Linguagem Jornalística) na minha frente, e achei um trechinho que tem a ver:
O jornaleiro desamarra o pacote de jornais e entrega um exemplar ao freguês. (…) Mas o freguês não pretendia comprar papel, embora, já que o tem, possa usá-lo depois para fazer embrulhos ou forrar latas de lixo: o que o levou à compra foi a informação impressa com tinta no papel.
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