Você não precisa ler isto aqui
Não estou dizendo que a morte de 126 pessoas seja coisa pouca. Mas a verdade é que eu passei esses últimos dois dias tentando imaginar se nada mais importante estava acontecendo a cada vez que abria um site de notícias.
Neste momento, as cinco notícias mais lidas do G1 têm alguma coisa a ver com isso – desde destroços encontrados a entrevistas com namorada de passageiro. Na Folha Online, “Veja nomes de 126 ocupantes do avião da Air France” virou a notícia mais lida (a segunda é a Cameron Diaz dizendo que queria ter mais bunda).
Não estou dizendo que a morte de 126 pessoas seja coisa pouca. Mas, entre todas aquelas pessoas que clicaram em “Veja nomes de 126 ocupantes do avião da Air France”, quantas realmente tinham alguma expectativa de encontrar um nome familiar?
Ou: exatamente qual informação importante estava na notícia mais lida? Não sei dizer – porque decidi não clicar no link (e é por isso que nenhuma matéria citada foi linkada).
No meio da tarde, chega um link via Twitter: Os verdadeiros urubus. Um trecho:
Um acidente aéreo tem mais destaque que o acidente de ônibus da equipe do Sertãozinho por dois motivos, um válido e outro inválido: os acidentes ganham importância de acordo com o número de mortos, e de acordo com o envolvimento de pessoas da classe dominante. O motivo válido quem provoca são as circunstâncias. A culpa do motivo inválido é toda sua, classe dominante. Porque é você que compra o jornal, e é para você que os jornalistas escrevem.
Não é exatamente como eu colocaria – até porque a expressão “classe dominante” não costuma sair da minha boca ou dos meus dedos. Mas a distribuição de culpa vai muito longe e chega muito perto. E será que eu posso falar muita coisa?
Desde que eu parei de trabalhar, deixei de lado vários hábitos de anos. Não leio mais sobre a vida da Amy Winehouse. Não sei mais se o Pete Doherty foi preso. Não tenho ideia do peso atual da Britney Spears (embora continue ouvindo os discos). O que foi ótimo, porque isso não estava mais fazendo muito bem para mim (notem que esse comentário foi feito apenas alguns dias antes de parar de trabalhar).
Mas a curiosidade mórbida é um bicho muito mais resistente. Nesta última semana, decidi parar de clicar em qualquer chamada sobre a crise conjugal dos Gosselin (de “Jon & Kate Plus Eight”) – mas confesso que foi só depois de ter lido bastante sobre isso. E eu nem assisto esse programa!
Uns meses atrás, eu descobri que é sim possível passar um BBB inteiro sem ler as notícias relacionadas. Não faz falta na sua vida e você consegue sim achar assunto para comentar com outras pessoas. Eu não preciso saber sobre o vencedor do BBB, não preciso saber sobre os Gosselin, não preciso saber sobre cada um dos 126 mortos.
Mas vamos admitir: ao mesmo tempo em que eu não sei (porque não cliquei), eu sei (porque vi a chamada). É praticamente uma osmose simbólica. Com exceção dos meus momentos mais disléxicos, nos quais meus olhos e meu cérebro inventam chamadas absolutamente surreais com palavras que não estão lá, o processo é rápido: o olho se mexe e pronto!, você fica sabendo que “Heidi and Spencer Return to the Jungle”.
Ao mesmo tempo, eu preciso avaliar o quanto eu posso ignorar sem ser completamente ignorante. Que tipo de julgamento eu posso fazer para decidir o que ler e o que não ler – antes de ler?
Lembrando um artigo que eu comentei um tempo atrás, a gente lê o que a gente quer ler. Talvez o jornalismo seja tão bom ou tão ruim quanto a gente. Mas acho que isso funciona nos dois sentidos: a gente faz o jornalismo ser ruim, e o jornalismo ruim faz a gente ser ainda pior.
Então eu estou aqui, tentando equilibrar o que eu posso não saber e o que eu fico sabendo sem querer ou precisar.
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