A morte do Michael Jackson me enche de perguntas que a autópsia não vai responder
Falar que a morte de Michael Jackson foi um fato midiático é um puta clichezaço. Mas foi. E foi grande.
Uma mensagem por segundo no Twitter. Congestionou o Google News (que botou captcha). E mandando no iTunes.
Foi grande.
Mas vamos pensar em como você ficou sabendo que o Michael Jackson morreu. Como eu não vivo na consciência de mais ninguém, vou falar sobre mim — mas um dos links acima, o do Daily Mail, tem até uma sequência cronológica das notícias veiculadas.
Era quinta-feira, então eu fiquei na ECA durante a tarde –o que significa que eu já tinha perdido o jogo do Brasil. Então eu chego em casa, um pouco antes das sete da noite, e paro para abrir e-mails e checar a chave de Wimbledon. Nada muito incrível — exceto por um post no Twitter sobre Michael Jackson.
Post sobre MJ? WTF, certo? Aí a capa do UOL anunciava que um outro “site” tinha noticiado a morte do Michael Jackson. Outro site? O TMZ, claro. Na definição do Guardian, o TMZ “had the celebrity scoop of the decade”.
Só que a morte do Michael Jackson era muito grande. Muito. Demais. E o TMZ não é o New York Times. Então todo o resto do mundo aguardava as informações do Los Angeles Times, que tinha noticiado a chamada para a emergência — mas não havia confirmado a morte.
Nessa hora, minha mãe liga a TV. O Globo News estava com a imagem da CNN (ainda noticiando como hospitalização, não como morte) mostrando… os arredores do Centro Médico da UCLA. Durante muito tempo. Minutos e minutos e minutos de imagem aérea de uma rua onde nada acontecia. Alguém me explica qual é a informação contida nessa imagem?
Enquanto isso, o correspondente internacional da Globo News conversava com os âncoras. As informações dele eram basicamente “o TMZ disse”, “o Los Angeles Times disse”, “no site da NBC…”. A âncora, no estúdio, no Brasil, tinha as mesmas informações. Por alguma ironia da internet, ela até acessava os sites antes do correspondente internacional. Alguém me explica qual a informação do correspondente internacional que está lendo as mesmas notícias que a âncora?
Nesse meio tempo, aliás, o New York Times, a NBC e todo o resto do mundo aguardavam o LA Times confirmar a morte. Que já havia sido publicada no TMZ pelo menos uma hora antes. Por que é que as pessoas não confiam no TMZ? A explicação longa está no link do Guardian uns parágrafos atrás, mas o TMZ é um site super bagaceiro. Paparazzi, vídeos com o cinegrafista gritando para a pseudo-celebridade, qualquer tipo de escândalo. A cara do site também é bagaceira.
Mas vamos admitir que o TMZ não faz barriga. E dá as notícias antes. Nem imagino qual é o acordo duvidoso entre os “repórteres” e funcionários de hospitais da Califórnia, ou com policiais ou com qualquer pessoa com algum acesso a informações supostamente privadas. Mas eu acredito no TMZ porque as notícias bagaceiras que eles publicam (antes) são confirmadas em seguida por todos os outros veículos.
Enfim. Eventualmente o Los Angeles Times confirmou o que o TMZ já tinha dito, e todo o resto do mundo pôde dar a mesma notícia de antes — só que sem a expressão “segundo o site TMZ”.
Bom, dá algumas horas e o mundo ainda está colocando “Michael Jackson” nos trending topics do Twitter. Falo rapidinho com a Marcela e, é claro, a capa desta semana será MJ. Eu estava ainda pensando se a morte do MJ foi mesmo a coisa mais importante que aconteceu nesta semana, mas, aparentemente, não dava para não colocar MJ na capa.
E não deu mesmo. As três semanais colocaram.
A da Isto É é… burocrática. A transformação de MJ em 4 fotos — da criança fofa dos Jacksons até a última versão que poderia ser colocada em uma capa de revista (as imagens mais recentes, com aquele pseudonariz, agridem demais).
A capa da Veja é… putz, achei fria. Tá, é reconhecível. Mas é deprê que o Michael Jackson seja reconhecido pela mãozinha.
Aliás, preciso observar: ainda bem que a Época não aprovou esta capa aqui.
A capa que a Época aprovou foi esta aqui. Que eu achei linda. Só que, como eles mesmos admitiram, a foto saiu na capa de uma Vanity Fair de 1989.

A foto é da Annie Leibovitz e a revista está sendo oferecida no eBay. E, se você ainda quer ler mais um pouco sobre MJ, a Vanity Fair reuniu várias matérias aqui.
O que eu queria dizer é que a morte do Michael Jackson foi enorme e “the lead story across the world”. E estamos todos RT-ando as mesmas piadas (ruins) no Twitter. Reciclando capas. Vendo a mesma informação se repetindo.
O blog Jornalismo nas Américas, do Knight Center, escreveu que “Morte de Michael Jackson deixa lições a jornalistas sobre como cobrir notícias de última hora”. Eu, sinceramente, acho que ninguém aprendeu nada. E ninguém vai aprender nada, porque não tem bem para onde ir.
Como lidar com rumores? Noticiando que os rumores existem (e que “estamos indo atrás disso”)? Isso foi o que meio mundo fez — o “Morre Michael Jackson, diz site”. Meio mundo fez isso porque o TMZ é bagaceiro, mas eficaz. Porque as chances de barriga eram pequenas — e, se fosse barriga mesmo, a “culpa” era do TMZ.
Só que noticiar rumores é problemático. Se não for verdade, não importa de quem é a culpa — quando a correção sair, milhares de pessoas já leram e ignoraram a parte que dizia que nada havia sido confirmado.
Devemos então abandonar o breaking news para evitar esse tipo de engano? Convenhamos que essa vontade de sair na frente já matou um governador antes da hora e divulgou uma lista errada da Fuvest. Mas quem quer ser o último a anunciar que, “OMFG urgente!!!! o MJ morreu” — quando todo o mundo (menos a minha irmã, que só descobriu na hora do almoço do dia seguinte) já sabia?
E tem mais um monte de perguntas nessa história toda. Jornalismo é uma escolha sobre quem é que nós vamos repetir? Então para que serve um correspondente internacional? Precisamos mesmo dessa imagem de cobertura por tanto tempo assim, mesmo que seja um tédio sem informação nenhuma? Essa foi mesmo a notícia mais importante da semana? E será que eu deveria saber tudo isso sobre a vida do Michael Jackson?
Mas eu não tenho esperanças. A causa da morte, as plásticas, as crianças, o suco de Jesus, Neverland e o Blanket serão muito mais discutidos do que tudo isso que eu perguntei.
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