10 coisas que eu odeio em T4
Eu tinha alguma esperança com T4. Foi lá pela época em que T:TSCC tinha uma minúscula chance de ser renovada (o que obviamente não aconteceu). Por causa dessa esperança, eu senti alguma culpa por não ter ido ao cinema para assistir “Terminator Salvation” (mas a minha falta de amigos geograficamente práticos não é o assunto). Aí ontem eu resolvi assistir o tal filme e fiquei muito feliz… por não ter ido ao cinema. Lá se foi uma hora e meia da minha vida que eu nunca vou recuperar, mas pelo menos o prejuízo não incluiu a (meia-)entrada, a fila, a pipoca e a tentativa de achar alguém que fosse ao cinema comigo (de novo: minha falta de amigos geograficamente práticos não é o assunto).
Antes de mais nada, duas coisas:
a) Eu não sou uma purista completamente mala. Eu assisto “Star Wars” na edição nova sem entrar em polêmica sobre o Han Solo ter atirado primeiro, e assisto a prelogia sem ficar reclamando do Jar Jar Binks ou das habilidades dramáticas de todos os intérpretes de Anakin Skywalker. Eu assisti “Terminator 3: Rise of the Machines”. Eu adorava “Terminator: The Sarah Connor Chronicles”. Resumindo: eu não vou discursar que nada vai ser melhor que “Terminator 2: Judgment Day”.
b) A partir deste momento, não vou me preocupar se você conseguiu demorar mais do que eu e ainda não viu T4. Vou falar do final do filme (que, surpreendentemente, eu não tinha ouvido até ontem) sem nenhuma culpa.
Se você ainda liga: as 10 coisas que eu odeio em T4:
1) O John Connor do Christian Bale – como tantas outras pessoas, eu achei que o Bale seria uma coisa boa para T4. O Nick Stahl é meio limitado, e desisti da campanha pelo retorno do Edward Furlong porque esta pessoa não tem cara de salvador da humanidade. E, sei lá, o Christian Bale tem bagagem dramática e tal. Mas o resultado é que o John Connor é… dramático. E meio sem graça. Eu entendo que a vida está dura em 2018, mas nem um programa de rádio vai consertar aquela falta de carisma (o “future John” descrito pela Cameron era infinitamente mais interessante). Como líder, John Connor é o cara-que-está-lá-na-frente. Ele precisa responder aos senadores, digo, generais! Tanto trabalho da Sarah Connor jogado no lixo.
2) Cadê a viagem no tempo que estava aqui? – olhe bem para este gráfico maravilhoso (aliás: encomendei ontem este livro aqui, que está em pré-venda). Achou “Terminator”? Achou T2? Achou T3? E, se você não souber, também tem timetravel em T:TSCC. Agora procure T4 nesse gráfico. Pois é, nada de viagem no tempo. E tudo bem que os robôs são o foco da fraquia (não é “Back to the Future”), mas viagem no tempo continua fazendo parte. No caso de Terminator, aliás, quanto maior o paradoxo, melhor. Mas talvez alguém tenha achado que viagens no tempo atrapalhariam toda a dramaticidade do filme. Afinal de contas, timetraveling is fucking distracting.
3) A personalidade da Kate Brewster – reproduzo o comentário que ouvi do @deniscp ontem: “nunca pensei que diria isso, mas eu quero a Claire Danes de volta”. A Kate Brewster já incomodava um pouco em T3, mas lamento dizer que Bryce Dallas Howard tem menos atitude que a Claire Danes. A Kate Brewster da Danes mandou um terminator para o passado/presente. Mandou no John Connor (Stahl) perdidaço. A Kate Brewster da Howard é uma grávida letárgica. A Sarah Connor ficaria decepcionadíssima com a nora. Mesmo que ela tenha sido a única mulher presa no abrigo.
4) Senso de humor? Eu? (outra do @deniscp) – não me importa se não é uma comédia. Não é para ser comédia. Não precisa ser comédia. Não precisa de um alívio cômico óbvio e ineficiente como Jar Jar Binks. Mas o roteiro simplesmente não tem nenhuma graça. O que significa uma falta de wit nos personagens. De novo: eu entendo que 2018 seja uma droga, mas o mínimo de sarcasmo sobreviveria ao dia do julgamento. Até o futuro matrixiano, que também é uma droga (e T4 ficou beeeem parecido), tem um pouco.
5) O plano criativo da Resistência – o Império, quero dizer, a Skynet deixou vazar os planos da Estrela da Morte, quero dizer, uma possível arma contra as máquinas para que os rebeldes a Resistência tentassem destruir a arma. O objetivo, é claro, era deixar os rebeldes a Resistência vulnerável a um ataque final do Império das máquinas. Mas tudo bem. Luke Skywalker John Connor dá um jeito de evitar o apocalipse. Mas alguém me explica outra coisa: como é que a Skynet nunca foi capaz de encontrar a porcaria do sinal do programa de rádio do John Connor?
6) John Connor odeia as máquinas. Odeia! – a reação do John Connor ao Marcus não é… consistente. Sim, o John Connor está em guerra contra as máquinas. Ele passou a vida tentando evitar/destruir a Skynet. Mas ele mesmo não é máquina e, portanto, tem todo o direito de ser confuso e ambíguo. E John Connor sempre foi confuso e ambíguo. Ele foi criado para ser ótimo com computadores. O John Connor do Edward Furlong ficou apegado ao Terminator-Arnie em apenas um filme. Uma coisa meio figura paterna, provavelmente. O apego é tanto que, em T3, o Terminator-Arnie explica que foi usado para matar o John Connor justamente por causa do rosto familiar. Sim, estou usando a lógica de T3 para argumentar contra T4 – that’s how bad it is. E o “future John” de T:TSCC (aquele que ninguém conheceu, mas que foi eventualmente comentado por Cameron e Jessie) confiava mais na bot do que nas pessoas.
7) A falta de um terminator de verdade – vilões são mais legais do que o Batman, terminators são mais legais do que as pessoas. Em T4, nossa dieta de robôs é basicamente restrita ao Marcus (sim, existem outros bots, mas são… figurantes). E ele melhora bastante ao longo da história (aquele começo gritando me incomodou, mas a tentativa de replicar a relação Arnie-Furlong com o teenageKyle não é tão ruim). Mas tem dois problemas com o Marcusbot: a) ele não é um terminator de verdade; ele não tem uma missão de matar ninguém e luta como uma pessoa-muito-forte, não um robô; b) uma parte importante da graça dos terminators são eles se descobrindo gente – o Furlong ensinando o Arnie a falar “Hasta la vista, baby”, a Cameron dançando balé –; o soldado se descobrindo bot não funcionou tão bem.
8) Marcus meets his maker – Marcus coloca a mão no terminal e encontra todas as informações do mundo. O dia do julgamento, onde está Kyle Reese. Mas, para entender o como-assim-eu-sou-um-robô, ele precisa de uma conversa com o Arquiteto, quero dizer, a Bellatrix Lestrange, quero dizer, a Dra. Kogan, quero dizer, Skynet se apropriando de um rosto familiar para contar qual era a sua missão. Afinal de contas, até dá para aprender kung fu via USB – mas não dá para discutir o sentido da vida e o destino do universo sem um bom papo.
9) Stop being such a girl! – deve ser culpa do Joss Whedon, mas eu espero uma strong-women-character nesse tipo de coisa. Em Terminator, a Sarah Connor teve que ser resgatada no começo, mas ficou forte – o auge óbvio é T2. Em T3, como a Sarah Connor não estava mais lá, fizeram a Kate Brewster fazer alguma coisa e colocaram uma she-terminator. Em T:TSCC temos as duas coisas: a Sarah Connor (que, apesar de não ser mais a Linda Hamilton, tinha suas qualidades) e a she-terminator aka riverbot aka Cameron (aka Summer Glau). Aí, em T4, a Kate Brewster é a grávida letárgica (ver #3). Então tentaram salvar isso com a Blair Williams (aquela que se apaixona perdidamente pelo bot em menos de 2 dias), mas ela não é lá muito importante.
10) Mi corazón, tu corazón – até aqui, eu estava sobrevivendo. Você estava sobrevivendo. Não é lá uma obra-prima, mas o que você esperava do McG? Era um filme com robôs e explosões e armas, e embora faltasse um diálogo inteligente e um personagem gostável… ainda não dava aquela vontade de apagar T4 da memória para ocupar meu cérebro com coisas mais importantes. Tipo T3. Só que aí chegamos na cena final da coisa. John Connor precisa de um coração e não viverá o suficiente para ir até Oz procurar o dele. Então eis que Marcus oferece o coração dele. Gente, esse negócio de coração disponível pra transplante é o fim. Aquele filme com o David Duchovny? O mundo podia ter ficado sem. Também podia ter ficado sem essa no final de “Eli Stone”. Quando fizeram isso em “Pushing Daisies” (“Corpsicle”), rolou um humor negro. Quando fizeram isso em T4, rolou uma pausa para vômito.
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Denis 2009|09|02 @ 00:49 | #
Brilhante! ahhahhaha
Por acaso, a personagem da Blair Williams daria um tópico extra por si só. Jesus, a mulher entra em cena, se apaixona pelo Marcusbot em 2 minutos (ok, ele é galã, mas vamos lá, seriedade, vc é uma militar – eu acho) e coloca em risco toda sua reputação e todo o movimento da resistência soltando ele de forma dramática. C ele ainda tivesse feito um discurso convincente ou algo assim. E “puppy eyes” não conta como convincente…
Verdade seja dita, T4 realmente foi a decepção do ano