Sem título
Meu irmão, em férias, vem para cá fazer turismo e resolve que quer visitar todos os museus que puder. Quase. Na terça, foi sozinho para o Masp. Mas, com alguma insistência (que incluiu a frase “Ele acha que eu não sou culta para isso”), consegui me convidar para os dois passeios seguintes — Museu do Futebol na quarta e Mercadão–Museu da Língua Portuguesa–Pinacoteca na quinta.
Eu até que me virei relativamente bem no Museu do Futebol e no Museu da Língua Portuguesa. Aliás, a programação visual dos dois é ótima. Não controlei a risada com aquelas boas-vindas do Pelé em espanhol e em inglês, e meu irmão teve sua reação exagerada à palavra “tucano” em um display, mas estávamos até que comportados.
Aí chega a hora da Pinacoteca.
Para começar, tinha um quadro marrom (“Sem Título”) ali, exposto. Juro, era um quadro marrom. Tudo o que eu posso dizer sobre aquele quadro é “ele era marrom”. E está lá. Na Pinacoteca. Do lado daquela montagem com três piscinas e as tigelas girando e girando e girando. Sério, era um quadro marrom. As tigelas pelo menos se mexiam e batiam e faziam sons – o quadro marrom só estava lá sendo marrom.
Eu claramente tenho muita sensibilidade artística.
Aí fomos para a exposição do Matisse. Começa com uma sala com alguns rabiscos e a história do cara. E eu, depois de ver o quadro marrom, estava ali tentando entender porque é que os rabiscos do Matisse fazem ele ser genial. Na sala seguinte, tinha um documentário mostrando o Matisse desenhando o neto. Tive que me controlar para não rir do retrato. De verdade. Por que é que o rabisco do Matisse é genial?
Depois do Matisse, tinha a mostra de cubistas. Eu continuava com a minha cara de paisagem, até que meu irmão aponta um quadro chamado “O Jarro Vermelho” (ou alguma coisa assim) e diz: “Então, não tem um jarro vermelho aqui”.
Bom, já que ele também não estava entendendo nada, eu apontei pro quadro do lado e falei: “E aquilo ali não é uma guitarra. E, de verdade, o retrato desse cara não tem o cara!”.
A essa altura, acabou toda a ilusão sobre o respeito à arte. Olhando para um retrato cubista de uma senhora: “Esse aí pelo menos tem a senhora, mas eu não deixaria ninguém me desenhar desse jeito esquisito. E, para falar a verdade, também não deixaria o vovô Matisse fazer meu retrato não…”. A resposta do meu irmão: “Ué, é só pedir para seu coleguinha de escola…”
Claramente, meu irmão também não tem lá muita sensibilidade artística.
Depois dessa, minha irmã ainda aponta um menino que estava tirando foto na outra sala e diz “Olha, é o Jake do ‘Two and a Half Men’”. E, pior: parecia. Ok, era um Jake mais esquisito – mas lembrava bastante.
Então estávamos os quatro rindo na Pinacoteca. O que possivelmente nem é lá muita coisa, considerando que eu meio que disparei o alarme do MAC uns anos atrás (o segurança teve que me mostrar a marca no chão limitando até onde eu podia chegar).
Mais ou menos duas horas antes, eu estava reclamando da excursão infantil no Museu da Língua Portuguesa…
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