Enganando alguém como você
No ano passado, eu reclamei (um pouco) sobre como uma notícia existe/cresce em dezembro só porque mais nada está acontecendo. Não que isso seja novidade — a São Silvestre, afinal, foi inventada para achar assunto para a Gazeta Esportiva (mas hoje em dia o Globo Esporte preenche espaço com a final do campeonato de várzea e o casamento do Nei Paraíba — sim, meu pai vê TV antes do almoço).
Enfim.
Tem duas coisas que eu deveria acrescentar à reclamação original: 1) se algum dia na sua vida você quiser chamar a atenção da imprensa, tente esperar até dezembro; 2) de vez em quando, essa falta de assunto significa que rola espaço para uma matéria até que interessante.
Hoje (ou ontem, dependendo da hora que eu terminar de escrever), depois de acordar me arrastar da cama, fui fingir ler a Folha por meio segundo e acabei achando a reportagem da capa da Ilustrada: Caindo na real. Basicamente são cinco artigos escritos por especialistas comentando a distância entre realidade e as séries de TV (no caso: House, Bones, Lie to Me, Sons of Anarchy, Capadócia). O coordenador do Nufor, Antonio de Pádua Serafim, escreveu o seguinte sobre Bones:
A série Bones mostra a prática da análise cadavérica de uma maneira muito real. É como os países desenvolvidos conduzem os procedimentos. Mas força a mão em como soluciona o caso e chega ao suspeito. Parece até mágica.
Na hora, lembrei deste quadrinho aqui, do PHD Comics:

E, em seguida, eu lembrei de uma coluna relacionando o estilo de vida de personagens e o salário médio de suas profissões:
Carrie is a Prada-buying, cosmopolitan-drinking, Manolo Blahnik-collecting kind of girl. She eats out constantly, resides in a roomy one-bedroom Manhattan apartment, and never seems to think twice before slapping down her credit card for more designer duds.
Even her job – sex columnist for a New York City newspaper – is glamorous. But don’t let the Sex and the City writers fool you: Carrie’s annual columnist salary wouldn’t come close to affording her that luxurious lifestyle (trust me). According to Payscale.com, a New York City journalist with 10 years of experience earns a median annual salary of about $57,000.
Resumindo bastante, temos duas situações aqui:
- Aspectos técnicos são desvirtuados para favorecer a narrativa (não dá para esperar semanas pelo resultado do toxicológico; não dá para perder todos os julgamentos…).
- A não ser que a dificuldade financeira seja um plot a ser explorado, as limitações financeiras são esquecidas sem remorso porque personagem pobre é tão ruim quanto personagem feio.
O objetivo dos lapsos de irrealidade, portanto, fazem parte da produção de um pacote que seja atraente e que não seja um tédio. Esse tipo de deslize incomoda quem tem um pé nessa área: advogados podem se irritar com séries de julgamento, médicos podem se incomodar com séries de hospital, jornalistas hollywoodificados me incomodam muito mais do que um chef de cozinha fictício.
O problema é que eu achei uma terceira situação: as chick-flicks deixaram de me enganar mesmo quando eu quero ser enganada. Mesmo que eu me prepare com sorvete e bolo e calda de chocolate. Ou seja:
- Situações altamente
improváveisimpossíveis são inseridas na história para permitir um happy ending.
Aceitando que os lapsos 1 e 2 incomodam quem tem alguma capacidade de expert no assunto, o que fazer quando estamos falando de chick-flicks, comédias românticas, filmes de mulherzinha — aqueles que insistem no “alguém como você”?
Aceitando que os lapsos 1 e 2 possam ser traduzidos como “a vida não funciona bem assim, mas vamos agilizar para encerrar a história neste episódio”, podemos traduzir a situação 3 como “a vida não funciona bem assim, mas vamos fingir um pouco para que as coisas deem certo no final”? E, se podemos, isso quer dizer que não existe happy ending para “alguém como você”?
Tem um terceiro ponto nessa história: dramas forenses se sustentam no voyerismo. Em todos vocês que gostam de ler sobre os crimes mais bizarros nos jornais. Você não é nem o serial-killer (espero), nem o agente do FBI, nem o médico legista. Só que a chick-flick se sustenta na identificação (o “alguém como você”).
Sim, você está ouvindo isso de uma pessoa que aceita o paradoxo do tempo de Terminator. Porque Terminator se propõe como uma fantasia e é assim que eu o vejo. Mas chick-flicks são (de novo) uma coisa de “alguém como você”.
Por uma lógica similar à do Terminator, eu consigo ver Jane Austen (a propósito: acabo de assistir o Sense & Sensibility da BBC sem a decepção da chick-flick que não me engana — o que indica que eu ainda não estou anestesiada pela exposição constante). É a Inglaterra do século XIX; é praticamente outro planeta.
Só que hoje eu acabei assistindo aquele filme de mulherzinha com a Kate Winslet e a Cameron Diaz e deusdocéu aquele filme de mulherzinha não cumpriu a função dele! Umas semanas atrás, estava assistindo aquele filme da Alexis Bledel por causa do trailer (tinha uma cena sobre aparecer em entrevista de emprego e encontrar milhares de pessoas atrás da mesma vaga, e outra cena sobre não fazer a menor ideia de qual é a empresa onde você foi fazer a entrevista) mas comecei a sentir vergonha alheia por todos os envolvidos (por quê, Jane Lynch? por quê?).
Não dá para aceitar que o velhinho de 90 anos consiga largar o andador e saltitar sobre os degraus depois de uma semana de pseudo-fisioterapia-não-profissional-na-piscina. Não dá para acreditar na Kate Winslet (mesmo sendo a Kate Winslet) decidindo que dar o fora no Dr. Jakob Hood depois de três anos de obsessão — só porque ela assistiu uns filmes com mulheres fortes. É tipo quando a Ashlee Simpson disse que superou a anorexia porque a mãe dela levou a família para comer churrasco com batata frita.
Só que umas semanas atrás a Marcela me perguntou sobre “um filme que representa fielmente as mulheres, que mostre as mulheres como elas são, sem ser histéricas”. Nos exemplos dela estava a Bridget Jones. Peeeeeraí, a Bridget Jones?
Aí a Marcela defendeu a Bridget como uma mulher irresistível “mesmo sendo atrapalhada, gordinha, fazendo gafes”, ou uma mulher como todas nós. Peeeeraí. A própria Marcela não é atrapalhada, não é gordinha e não faz gafes. E, mais importante: não é uma caricatura. Por que se identificar com a Bridget Jones? Será que mais pessoas estão se identificando com a Bridget Jones? (E, poxa vida, eu li/assisti a Bridget Jones!)
A autora do artigo sobre os Manolo Blahnik impossíveis de uma jornalista escreveu: não deixe que os roteiristas enganem você. Mas eu quero ser enganada, de vez em quando (principalmente quando estou vendo TV). Por isso eu vou adaptar o conselho para um que eu considero mais útil: pode se enganar o quanto você quiser, mas esqueça isso assim que desligar a TV.
Procurar
Ficha Técnica
Arquivo
Twitter
Categorias
Tags
Links
Feed

