A saga (de alguns) dos brinquedos quebrados

Fazia menos de uma semana desde que a minha irmã e eu tínhamos ganhado nossa primeira Barbie (isso foi há muitos e muitos anos). Aí a minha irmã estava penteando o cabelo da Barbie dela com toda aquela delicadeza e arrancou a cabeça da boneca. Tragédia.

Se você nunca teve uma Barbie ou nunca teve o desprazer de arrancar a cabeça de uma, deixa eu explicar: tem uma pecinha de plástico que se acomoda metade dentro do pescoço da Barbie, metade dentro da cabeça. Aí a cabeça fica no lugar certo e tem alguma mobilidade.

Bom, a minha irmã arrancou a cabeça da Barbie, mas não tinha feito nenhum estrago devastador no pescoço. A pecinha de plástico estava presa nele (e não ficou perdida dentro da cabeça). Na hora, vem aquele “Paaaai, a cabeça da Barbie saiiiiu“. Meu pai, cheio de boas intenções, tentou recolocar aquilo no lugar… e quebrou o pescoço da Barbie. Na hora, a minha irmã liberou aquele “O pai quebrou a cabeça da Barbie!!!!“. Tadinho. Tadinha. Minha irmã ficou com uma Barbie baixinha e sem pescoço até ganhar uma nova (o jeito era entuchar o pescoço da boneca dentro da cabeça, sem a pecinha de ligação).

Eu lembrei dessa história porque acabei de ver uma foto de alguma coisa em forma de coelho (não pergunte o que era, eu me distraí em seguida). A foto do objeto esquecido em forma de coelho me fez lembrar que eu tinha uma tesoura em forma de coelho. Era obviamente uma tesoura infantil, de ponta redonda, de plástico. E a parte que corta formava as orelhas do coelho. E eu gostava daquela tesoura.

Gostava tanto que até fui procurar uma no Google. Descobri este modelo mais moderno “olha como sou um coelho bacana”:

Mas a minha tesoura não era assim não. Procurando mais um pouquinho, achei uma mais parecida:

Só que a minha não tinha essa cara assustadora. Ela era lindinha e boazinha. E era cor-de-rosa. Enfim. Era uma tesoura de plástico cor-de-rosa em forma de coelho não-assustador (o que é que as crianças soviéticas aprendiam sobre coelhinhos???). Até que, um dia, na colônia de férias… meu pai resolveu usar a tesoura para abrir uma caixinha de leite. Seriously. Vamos combinar que o material do Tetra Pak não é lá o mais molinho do mundo. Vamos combinar que a tesoura é feita de plástico. Não lembro se a caixinha de leite resistiu ou não, mas lembro muito bem que a tesoura não resistiu. Triste.

Mas acho que meu pai confiava muito no plástico. Uma vez ele quebrou a concha do kit de brinquedos de praia (tinha um baldinho vermelho, pá azul, concha verde, rastelo amarelo e uma peneira branca) porque resolveu usar aquela pá de plástico para tirar tinta latex da lata. E tinta látex é ridiculamente pesada. E eu já falei que a pá era de plástico? Pois é…

(Eu super perdoo meu pai. Até porque eu quebrei o braço do violão dele porque estava meio distraída enquanto passava pela porta. É, eu sei. Mas eu era uma criança, ok?)

Mas eu não tinha nenhum apego emocional com a concha de praia. Eu tinha algum apego com a tesoura de coelho. E a Barbie não era minha.

Só que eu tinha um ursinho de pelúcia Sossego. Aquele que virava a cabecinha e tinha um travesseirinho, que fica preso na mão do Sossego com velcro. Era meu ursinho de pelúcia preferido. O mais preferido. Do universo. Aquele que você deixa na cama e leva quando vai viajar, sabe? Esse era o Sossego.

Aí um dia meu irmão e a minha irmã resolveram que era muito divertido empurrar a cabecinha do Sossego contra a bunda do Pirulito (o elefantinho de pelúcia da Leda — que ainda resiste, embalado em Magipack). Fora a parte sobre a violação de seus direitos de bichinho de pelúcia, o ataque ainda deixou uma sequela no Sossego: ele ficou com o pescoço mole. A cabecinha dele agora balançava.

Nas férias seguintes, nós três estávamos brincando de jogar os bichinhos de pelúcia um para o outro (cada um em um beliche) e o Sossego caiu. O Sossego caiu e a cabeça dele saiu rolando pelo chão. Eu sei que parece engraçado, mas você já assistiu o seu bichinho de pelúcia mais preferido do universo ser decapitado?

Para piorar, a minha mãe resolveu consertar a situação. Só que não dava para simplesmente pregar a cabeça do Sossego no corpinho dele. O incrível charme do Sossego é que a cabecinha dele girava, aí você podia colocar ele dormindo de lado em cima do travesseirinho (quando ele estivesse dormindo, obviamente), ou voltar a cabeça para a frente e abaixar os bracinhos (quando ele estivesse acordado). Sim, o Sossego era o ursinho de pelúcia mais companheiro que eu tive.

Enfim, a solução da minha mãe foi costurar velcro no Sossego. Só que tem dois problemas nessa história. O primeiro é que você precisa decapitar o seu bichinho de pelúcia mais preferido do universo toda vez que quiser mudar a cabeça ele de posição. Traumático. O segundo é que minha mãe, em momento de imensa sensibilidade, resolveu costurar velcro azul marinho no meu ursinho beginho. Ficou horrível, é claro.

Eventualmente, eu desapeguei do meu ursinho decapitado. Não sei o que aconteceu com ele. Foi meu último ursinho de pelúcia mais preferido do universo.

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