Como eu (não) discuti religião com os meus pais

(Porque a série “tudo o que eu tinha que escrever nos últimos meses e não escrevi” é interminável.)

Sabe aquelas pessoas que preenchem formulário e fazem X na casinha “católico” só por fazer? Bom, esses não são os meus pais. Meus pais fazem parte de equipe de liturgia, são coordenadores de pastorais, participam dos vicentinos… de verdade, acho que meu pai está no speed-dial da igreja. E minha mãe faz sobremesas para os padres.

Nesta sexta-feira, por exemplo, meus pais levam a sério aquele negócio de não comer carne vermelha ou chocolate ou qualquer coisa que você goste.

Nesta sexta-feira, eu também estava comentando com a minha mãe (que, além de fazer sobremesa para os padres, também é formada em Biologia) sobre uma matéria que saiu na FSP com uma pesquisa da Datafolha sobre criacionismo/darwinismo. A coisa mais notável da pesquisa era isto aqui:

Uma nota curiosa vai para os que se declaram ateus. Entre eles, 7% também se classificam como criacionistas da Terra jovem e 23% como partidários da evolução comandada por Deus.

O que provavelmente indica simplesmente que as pessoas são confusas.

Maaas eu estava comentando os 25% que disseram ser criacionistas hardcore. Bem menos que os 44% da pesquisa norte-americana, mas ainda enorme. Minha mãe, como bióloga católica, entra naqueles “evolucionistas com Deus”. Porque é absolutamente possível respeitar a sua religião sem precisar achar que a bíblia é literal. Aí nós duas estávamos reclamando de uma certa tendência à literalidade em contextos religiosos.

Meu pai não gostou muito e foi me mostrar algum livro xis dele dizendo que a igreja não condena a evolução etc etc etc. Felizmente minha mãe estava comigo e nós duas passamos a mencionar todos os casos que conseguimos lembrar. Diáconos e padres que citam o gênesis como um “aconteceu assim”, por exemplo. A postura oficial sobre AIDS na África. Para a minha mãe, essa frescura de só permitir sacerdotes homens.

Para mim, tudo volta à Crisma. Sim, eu fiz Crisma, faz mais ou menos uns 10 anos. E foi uma das coisas mais incômodas que eu já fiz.

Porque uma coisa é você ter 8 anos e ouvir a catequista falando sobre ser obediente. Outra coisa é você ter 15 anos e o catequista perguntar “O que veio primeiro — o ovo ou a galinha?” e responder que foi a galinha, “porque Deus criou os animais que voam, rastejam, nadam, andam, e ninguém falou nada sobre ovo nenhum“.

Acho que esse foi meu dealbreaker. O momento em que a coisa mais religiosa em mim passou a ser a frase “senhor, dai-me forças para superar este momento sem cometer uma chacina com o poder da mente”.

Voltando a esta sexta-feira, minha mãe então completou que os pregadores são literais (mesmo que essa não seja a orientação geral da igreja) e que nós, pessoas normais, dependemos de fazer as adaptações por conta própria. Como “a Lu fez”.

Nessa hora, achei melhor não continuar.

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