Archive for the ‘Ego’ Category

Décimos

Tuesday, February 26th, 2008

Então meu pai fala alguma coisa sobre a época em que ele dava aulas, e quando mudou de conceitos (A-E) para notas (10-0). E eu falo “Ah, eu gostava mais de notas. 10 é mais do que 8,5″.

Então meu pai fala sobre o sistema usado no Senai, no qual é possível tirar 10 sem acertar todos os itens de uma prova. E eu fico horrorizada, porque acertar 75% pode ser suficiente, mas não é 100%. Não é.

Então meu pai desencana de discutir isso porque ele acha uma coisa, eu acho outra e pronto. E eu não desencano muito, porque fiquei parecendo a aluna neurótica.

E, tá, eu até sou. Não gosto de matar aulas, não gosto de chegar atrasada, não gosto de perder prazos.

Mas é tão ruim gostar de quando eu tiro (ok, tirava) 10? Se o objetivo é ser suficiente, é só tirar 5. Mas acertar todos tem que ser mais do que acertar o suficiente.

E, poxa, eu nem sou tão aluna neurótica assim. Nunca passei muito tempo estudando, fazia dever de física ouvindo música e não fico lá muito concentrada enquanto outras pessoas estão falando.

Fora que não, eu não ficava comparando minhas notas por aí. Aliás, pessoas avulsas comparavam a nota comigo (e, bem feito, perdiam!).

Eu passei no mestrado por meio ponto. 7 era suficiente, mas 7,5 é mais que 7.

Prenda a sua língua

Friday, February 22nd, 2008

Era uma vez uma língua que não gostava muito dos dentes. Ela queria se esparramar, sem aqueles limites brancos e duros. O problema é que, sempre que ela tentava brigar com eles, saí perdendo e cheia de mordidas.Então a língua criou um plano. Ela começou a empurrar os dentes, de pouquinho em pouquinho, para fora da boca…

Pois é, essa é a minha língua. O dentista disse que tenho a mordida aberta (os dentes de cima avançam mais do que deveriam), e que seria melhor que eu usasse aparelho (provavelmente fixo, provavelmente por uns dois anos, custando uns R$ 2200 no total). E que eu preciso fazer fono (já fiz quando tinha 5 anos, e depois quando eu tinha 18) para aprender a controlar a língua – que deve ficar “nessa almofadinha aqui no céu da boca”.

A língua de mais alguém fica batendo nos dentes? Eu preciso puxar ela para trás para colocar a coitada na tal almofadinha!

(Obviamente, eu fiz aquela careta de “como assim eu tenho que usar aparelho nessa idade???”, e o dentista respondeu: “olha, eu tenho uma paciente de 60 anos”. E tá, eu pensei “ah, mas aos 60 anos, o aparelho é a menor das preocupações dela…”.)

Viva o pote de ouro!

Wednesday, February 20th, 2008

Becoming JaneConhecem o filme “Becoming Jane”? É sobre a Jane Austen e o semi-caso dela com o Thomas Lefroy (aka James McAvoy), mas com muitos momentos “vejam como ela se inspirou para escrever ‘Orgulho e Preconceito’”) e sem muita preocupação com o que aconteceu de verdade.

Enfim, a Jane Austen está toda apaixonada pelo James McAvoy, mas ele não pode casar com ela porque o tio dele (que é rico) não aprova a idéia, e ele depende do tio rico. Aí tem um pretendente alto (o James McAvoy parece ser bem baixinho) todo rico que quer casar com a Jane. Ele não é exatamente um James McAvoy, mas está todo apaixonado e tem uma casa e uma tia rica e não tem pais para atrapalhar. E não é completamente medonho.

Como eu já sabia, o caso da Jane com o James McAvoy não dá em nada. Ele se casa com alguém que o tio dele aprova e vira um juiz importante na Irlanda; ela escreve um monte de livros para meninas e morre solteira. Eu sabia que a Jane Austen não casava, nunca. Que até teve um pretendente, mas não foi o cara rico fictício.

Mas eu estava vendo o filme romântico sobre a escritora de livros românticos e tudo o que eu pensava era… “Jane, querida, casa logo com o cara rico antes que ele se canse”. O que isso diz sobre mim?

(Aí hoje eu estava voltando para casa e tinha um arco-íris no céu. Fazia séculos que eu não via um. E eu fiquei toda “oh, um arco-íris. Então filmes românticos estão perdendo o efeito, mas ilusões de óptica ainda me afetam. O que isso diz sobre mim?)

Italo Calvino me entende

Friday, February 15th, 2008

Não que eu entenda alguma coisa sobre ele.

Mas comecei a ler “Fábulas Italianas” (é, estou em fase “contos populares”) hoje. Queria um livro com historinhas, porque o da Warner era muita análise com uns poucos resumos das histórias. Enfim, o livro do Calvino é uma compilação de histórias populares italianas, traduzidas (a partir de dialetos) e retocadas por ele. Aí estava lendo a introdução (quase pulei!) e encontro este trecho:

… Trabalhei em material já reunido, publico em livros e revistas especializadas ou disponível em manuscritos inéditos de museus e bibliotecas. Não foi recolher pessoalmente as histórias no regaço das velhotas; e não porque não existam mais na Itália “lugares de conservação”, mas porque, com todas aquelas coletas dos folcloristas, sobretudo do século XIX, já dispunha de uma grande massa de material no qual trabalhar, e tentativas de coleta original talvez não trouxessem resultados apreciáveispara os objetivos do meu livro. E, além do mais, afinal de contas não é meu campo, é um trabalho que exige que se saiba fazê-lo, exige que se saiba ganhar a confiança do próximo, e eu já iniciaria com a prevenção de que as pessoas têm mais o que fazer do que me contar as fábulas.

Porque eu ando pensando (e pensando e pensando e pensando) que 1) Jornalismo é uma área enorme que engloba diversas carreiras ligadas a informação; 2) Reportagem é uma das carreiras englobadas no Jornalismo, mas as duas palavras não são sinônimos; 3) Reportagem é um trabalho que se divide em duas partes: a primeira é a coleta de informação das fontes; a segunda é a transmissão dessa informação para o receptor.

Eu ando pensando nisso porque eu gosto muito de jornalismo, mas nem tanto de reportagem. E eu gosto muito mais da segunda parte da reportagem do que da primeira. Isso pode ser uma questão de poder (na minha cabeça, o dono da informação está sempre em posição privilegiada), pode ser um sintoma de eu gostar mais de ser ouvida do que de ouvir (e quem não gosta?). Não vou analisar muito disso agora.

A questão é que coletar informações “é um trabalho que exige que se saiba fazê-lo”. E eu até entendo a teoria, mas a prática me dá muita dor de cabeça. E um dos motivos da dor de cabeça é que “as pessoas têm mais o que fazer do que me contar” o que eu preciso ouvir delas.

É um pouco irônico. Na reportagem, ouvir é a atividade invasiva. Já ser ouvido é passivo, depende do interesse do possível receptor.

(Mais ou menos relacionado: o Gustavo apontou que eu vivo criando blogs, mas não insisto para que as pessoas entrem, leiam, comentem. Ele disse que os sites são “uma prova da vontade de se comunicar”, mas que eu não me comunico “de fato”. O motivo de eu não ficar convidando? “A noção de que eu posso achar que eu sou um tema de simpósio, mas as outras pessoas não precisam se interessar”. Isso foi na madrugada da terça-feira.)

A tradicional explicação (confusa)

Monday, February 11th, 2008

Vestibulanda em 2000, bixete em 2001, ecana durante bons cinco anos, formanda em 2005, jornalista desde então.

Estou pensando de novo e de novo nessa trajetória desde a semana passada. Desde que eu vi que hoje, dia da minha matrícula no mestrado da ECA, era também dia de matrícula dos novos bixos da USP. (Aliás, pensei tanto nisso que acabei indo cavar qual foi o dia da minha matrícula na graduação: 12 de fevereiro de 2001.)

Eu lembro demais do dia da minha matrícula. Lembro muito bem qual era a sensação: “o pior já passou”. Tudo ia dar certo, como se fosse uma lei da natureza. Inevitável.

É claro que, depois disso, foi aquele tradicional sobe-e-desce de dias de certeza e dias de arrependimento. Até a formatura, que foi as duas coisas ao mesmo tempo. E, para falar a verdade, os últimos meses andavam meio cheios de arrependimento. Porque existe o “Ganhar bem fazendo o que gosta”, existe o “Não gostar muito do trabalho, mas ganhar bem o suficiente para suportar”… e existe o “Aimeudeus, por que é que eu estou fazendo isso comigo mesma? Por quê???”, velho conhecido de todas as pessoas que deram o azar de caírem no meu MSN.

Mas eu tive uma verdadeira epifania. Daquelas que acontecem naquela hora em que você está morrendo de sono e um pouco incapaz de fazer sentido. Naquela hora em que você não pode mais mandar SMSs hiperempolgados, porque nem os seus melhores amigos precisam aturar essas coisas.

O resumo é que jornalismo não é uma droga. O resumo é que eu adoro jornalismo, mesmo que a carreira não ajude muito. Mesmo que eu não tenha uma carreira. Mesmo que eu não tenha planos.

A epifania é que eu não fiz a maior besteira da minha vida (até porque preciso dar valor a besteiras muito piores do que essa). Nem em 2001 e nem agora, em 2008. Vestibulanda em 2000, bixete em 2001, ecana até agora. E jornalista, sim, mas na minha própria definição da coisa.