Não que eu entenda alguma coisa sobre ele.
Mas comecei a ler “Fábulas Italianas” (é, estou em fase “contos populares”) hoje. Queria um livro com historinhas, porque o da Warner era muita análise com uns poucos resumos das histórias. Enfim, o livro do Calvino é uma compilação de histórias populares italianas, traduzidas (a partir de dialetos) e retocadas por ele. Aí estava lendo a introdução (quase pulei!) e encontro este trecho:
… Trabalhei em material já reunido, publico em livros e revistas especializadas ou disponível em manuscritos inéditos de museus e bibliotecas. Não foi recolher pessoalmente as histórias no regaço das velhotas; e não porque não existam mais na Itália “lugares de conservação”, mas porque, com todas aquelas coletas dos folcloristas, sobretudo do século XIX, já dispunha de uma grande massa de material no qual trabalhar, e tentativas de coleta original talvez não trouxessem resultados apreciáveispara os objetivos do meu livro. E, além do mais, afinal de contas não é meu campo, é um trabalho que exige que se saiba fazê-lo, exige que se saiba ganhar a confiança do próximo, e eu já iniciaria com a prevenção de que as pessoas têm mais o que fazer do que me contar as fábulas.
Porque eu ando pensando (e pensando e pensando e pensando) que 1) Jornalismo é uma área enorme que engloba diversas carreiras ligadas a informação; 2) Reportagem é uma das carreiras englobadas no Jornalismo, mas as duas palavras não são sinônimos; 3) Reportagem é um trabalho que se divide em duas partes: a primeira é a coleta de informação das fontes; a segunda é a transmissão dessa informação para o receptor.
Eu ando pensando nisso porque eu gosto muito de jornalismo, mas nem tanto de reportagem. E eu gosto muito mais da segunda parte da reportagem do que da primeira. Isso pode ser uma questão de poder (na minha cabeça, o dono da informação está sempre em posição privilegiada), pode ser um sintoma de eu gostar mais de ser ouvida do que de ouvir (e quem não gosta?). Não vou analisar muito disso agora.
A questão é que coletar informações “é um trabalho que exige que se saiba fazê-lo”. E eu até entendo a teoria, mas a prática me dá muita dor de cabeça. E um dos motivos da dor de cabeça é que “as pessoas têm mais o que fazer do que me contar” o que eu preciso ouvir delas.
É um pouco irônico. Na reportagem, ouvir é a atividade invasiva. Já ser ouvido é passivo, depende do interesse do possível receptor.
(Mais ou menos relacionado: o Gustavo apontou que eu vivo criando blogs, mas não insisto para que as pessoas entrem, leiam, comentem. Ele disse que os sites são “uma prova da vontade de se comunicar”, mas que eu não me comunico “de fato”. O motivo de eu não ficar convidando? “A noção de que eu posso achar que eu sou um tema de simpósio, mas as outras pessoas não precisam se interessar”. Isso foi na madrugada da terça-feira.)