Preciso ler alguns pedaços de uma tese, mas estou caindo em momentos de desconcentração total. Do tipo que não adianta nem começar a ler em voz alta – continuam sendo apenas palavras colocadas em uma seqüência que não me faz o menor sentido. Mesmo que eu saiba, lá no fundo, que o encadeamento é lógico e elas devem fazer algum sentido. Afinal de contas, eu sei que são apenas 20 páginas – mas elas continuam levando uma eternidade.
Isso é uma coisa que vem acontecendo bastante desde que eu comecei a assistir as aulas do mestrado, há quase dois meses. Eu expliquei outro dia para alguém: eu tinha uma fé retardada de que o procedimento de matrícula na pós-graduação incluísse plugar um USB na minha nuca. Só que em vez de abrir os olhos e dizer “I know kung-fu”, eu diria uma coisa do tipo “Eu sei quem é Jesús Martín-Barbero”. Ou “Eu não surto com conceitos quando ouço a frase ‘O paradigma incorpora no epistemológico e no ontológico’”.
Nem preciso dizer que isso não aconteceu e que, de lá pra cá, só estou usando a Força. Ou tentando.
O caminho lógico a seguir, já que não existe uma porta USB na minha nuca, é… ler. O problema é que, quando eu leio Jesús Martín-Barbero, eu continuo fazendo cara de interrogação. E o pior é que nem dá para ler muita coisa, porque eu demoro horas para ler vinte páginas (ok, metade disso é o tempo que eu levo me convencendo a ler).
Eu poderia pensar que eu sou um pouco retardada, mas não gosto dessa alternativa. Eu sempre li bastante. Algumas coisas boas, muitas coisas ruins, mas sempre li. Então, neste momento, eu vou deslocar a culpa para a minúscula habilidade de um texto acadêmico despertar algum prazer ou interesse durante a leitura. Será que é impossível que um texto científico seja tão interessante quanto uma narrativa?
Narrativas funcionam
Em algum ponto do livro do Richard Saul Wurman (que tem historinhas e é perfeitamente interessante) tinha uma teoria falando que a bíblia é uma coleção de historinhas que poderiam muito bem ser trocadas por uma tábua de pedra com dez mandamentos – mas as historinhas são mais eficazes. Nós recordamos e recontamos histórias, nós esquecemos listas. Mitos são formas de passar valores para a frente – e mitos são narrativas.
Narrativas funcionam mesmo com palavras que não pertencem ao cotidiano do leitor
Eu li sete livros “Harry Potter”. E alguns deles eram enormes. E eles nem são ultra-originais – e, para falar a verdade, eu achei o quinto um porre. E nem vou comentar o final! Mas isso não vem ao ponto.
A questão é que aquela mulher inventa palavras. Para piorar, eu li os primeiros livros em português e os últimos em inglês – e a tradutora brasileira inventou palavras novas para as palavras inventadas. Quadribol/quidditch, horcrux, trouxas/muggles. E tem ainda os encantamentos (alohomora, expelliarmus, obliviate, prior incantatem, wingardium leviosa). Nada disso serve para interromper a leitura porque eles foram apresentados antes. E a apresentação era clara: um exemplo da coisa funcionando.
Uma nota de rodapé bem escrita é lida mesmo quando é desnecessária e falsa
Existe um livro enorme chamado “Jonathan Strange & Mr Norrell”. Foi o primeiro romance da Susanna Clarke, era enorme e ganhou um prêmio Hugo. E, desde o começo do ano passado, é o meu livro preferido.
A história basicamente fala de dois mágicos ingleses na época de Napoleão. Então existem algumas referências ao período, mas ele é praticamente todo inventado. O livro funciona como uma espécie de biografia dos mágicos fictícios, e as notas de rodapé trazem referências a fontes fictícias.
E eu li todas as notas de rodapé desse livro.
(E confesso que vejo notas de rodapé dos textos mais chatos como “uma redução da quantidade de texto a ser lido em uma página”.)
Ok, textos científicos não são historinhas
E eu sei que uma estrutura adequada facilita muito na hora de saber se o livro tem aquilo que eu estou procurando – e em que capítulo eu vou encontrar a tal informação. Mas não seria bacana se eu encontrasse o capítulo e conseguisse ler aquelas páginas sem querer me matar no meio?
Mas talvez não seja má idéia entender o funcionamento de uma narrativa e tentar tomar emprestado algum elemento. Talvez um caso que exemplifique o assunto – uma coisa que possa ser lembrada na hora em que eu estou afundando em explicações e teorias. Talvez um pouco menos de frescura.
Vou expor a minha capacidade mental limitada e tentar um exemplo: quando eu estou com muito sono em uma aula, preciso escolher no que vou concentrar as minhas energias: ou eu continuo com os olhos abertos, ou eu seguro o pescoço reto, ou eu fecho os olhos, apóio a cabeça na carteira e ouço.
E quando eu estou lendo um texto que está me dando uma dor de cabeça psicológica, ou eu entendo a teoria ou eu tento descobrir qual é o sujeito daquele verbo, depois de tantas vírgulas e travessões e parênteses e notas.
A jornada do pesquisador
Estava fazendo um mini-trabalho sobre heróis (aliás, “O Rei Leão” e Christopher Vogler ajudam a entender Joseph Campbell), então estou obviamente influenciada. Mas também estava tentando ler a tal tese (que deu início a esta reclamação) e aquele livro enorme está me dando dor de cabeça, mas até que tenta ser auto-explicativo. No começo, existe todo um capítulo explicando o assunto e quais teorias orientaram a pesquisa, e como a autora fez o trabalho.
Então estou pensando que talvez a pesquisa acadêmica tenha uma narrativa – a jornada do pesquisador. Não estou defendendo que uma tese vire a autobiografia de ninguém, ou que eu acabe com N páginas de dramas sobre as dificuldades dessa pesquisa ingrata.
Mas acho que toda tese/dissertação deveria ter uma orelha sobre o autor. Acho que seria bom entender quem é que escreveu aquilo tudo, e tentar imaginar qual foi a motivação.