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Babel: Pesquisadores da Morte

Veículo: Babel
Data de redação: junho/2004 (revista não-publicada)
Pauta e redação: Luciana Silveira
 

 

Pesquisadores da Morte

Dedicados a criar armas e agentes bioquímicos cada vez mais letais, os cientistas militares são a outra face da mesma ciência que salva vidas

Durante 16 anos, o bioquímico Serguei Popov realizou pesquisas em uma unidade subsidiada do programa soviético de armas biológicas. Popov, que liderou projetos e era chefe de seu departamento, chegou a receber um prêmio do governo em reconhecimento às suas realizações no campo das ciências biológicas.

O programa soviético de armas biológicas prosperou em anos de Guerra Fria – estima-se que os soviéticos chegaram à capacidade de produção de 300 toneladas de antraz em 250 dias em uma só unidade de pesquisa, além de desenvolverem técnicas de manipulação genética em agentes biológicos para aumentar sua letalidade.

Os trabalhos de Popov incluíram a manipulação da bactéria Legionella (causadora de problemas respiratórios como a pneumonia) com a introdução de fragmentos de mielina (estrutura que envolve os axônios dos neurônios). O objetivo desses trabalhos era fazer com que o sistema imunológico provocasse a auto-destruição do organismo. Os testes de laboratório com porquinhos-da-índia verificaram dano cerebral e paralisia nas cobaias infectadas com a bactéria manipulada, com taxa de mortalidade de quase 100%. Esse era o resultado da reação metabólica à mielina que ocorria após os sintomas normais da Legionella terem sido tratados.

Detalhes sobre o programa soviético de desenvolvimento de armas biológicas só foram conhecidos ao final da década de 1980, quando alguns cientistas do programa desertaram para países ocidentais. O programa foi encerrado oficialmente por Boris Yeltsin em 1992, 20 anos depois que a Convenção sobre a proibição de armas biológicas foi aberta para assinaturas.

Os detalhes eram bastante interessantes para os pesquisadores americanos. Nos EUA, o programa de armas biológicas – criado em 1942 após a descoberta do desenvolvimento realizado pelo Japão nessa área – havia sido oficialmente encerrado em 1969, e as pesquisas foram voltadas a mecanismos de defesa contra o uso militar de agentes biológicos. E é em um laboratório norte-americano que Popov realiza desde 2000 pesquisas na área de proteção médica contra armas biológicas. "Meus colegas e eu descobrimos diversas formas promissoras de tratamento de antraz em animais, e estou muito otimista de que medicamentos eficazes para seres humanos não estão mais tão distantes", diz Popov.

Questionado sobre essa "mudança de polarização", Popov afirma que sempre teve a mesma impressão – bastante negativa, aliás – sobre armas biológicas. "O que mudou foi a minha percepção das necessidades do mundo atual", explica. Esse "mundo atual" a que Popov se refere é o fim do contexto de Guerra Fria, da corrida armamentista entre EUA e a então União Soviética, do medo de bombas nucleares, antraz e napalm.

 

Micróbios na batalha

Mas armas e germes já andavam de mãos dadas bem antes da Guerra Fria. Envenenar pontas de flecha com toxinas vegetais ou mesmo mergulhá-las em material fecal para, com alguma "sorte", carregar junto com a arma alguma doença como tétano ou gangrena gasosa – o homem conheceu estas técnicas antes de conhecer a agricultura ou a escrita. Jogar corpos de homens ou animais mortos nos reservatórios de água inimigos também é outro antigo recurso de guerra.

Mesmo sem poder observar microscopicamente o que estava acontecendo, o resultado era conhecido: corpos em decomposição inutilizavam a água, e a preparação das flechas aumentava as chances de derrotar o inimigo – se o ferimento não fosse suficiente, quais as chances de sobrevivência contra a infecção que seguiria?

Na Idade Média, esse "ataque biológico" primitivo sofreu uma evolução: as cidades e portos se protegiam com muros, e os ataques agora contavam com catapultas. Segundo alguns historiadores, um surto de peste negra ocorrida na Europa só século XIV foi desencadeado depois de um ataque tártaro em Kaffa, na Criméia, quando os tártaros catapultaram para dentro dos muros corpos humanos infectados com a peste.

Há ainda descrições da entrega deliberada de cobertores de colonos europeus infectados com varíola para índios americanos já no século XVIII.

A percepção da possível evolução do uso de agentes biológicos como armas de guerra (graças ao desenvolvimento científico) criou preocupações que aparecem em tratados como o Protocolo de Genebra, de 1925, que já limitava o uso desses agentes para fins militares, mas não a pesquisa.

 

Destruição em massa

Em 1972 foi aberta para assinatura a Convenção sobre a Proibição de Armas, que entrou em vigor em 1975. "Este instrumento é de grande importância, pois representou o primeiro acordo multilateral que proíbe o desenvolvimento, produção, estocagem, posse, aquisição e transferência de tipos e quantidades de agentes biológicos, qualquer seja a sua origem ou método de obtenção, que não tenha justificativa profilática, preventiva ou pacífica, além de armas, equipamentos e meios de lançamento ou dispersão de agentes e toxinas com propósitos hostis ou em conflitos armados", explica Roque Monteleone Neto, professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo e membro do Conselho da Comissão das Nações Unidas para Monitoração, Verificação e Inspeção do Iraque.

O problema em se limitar completamente a pesquisa científica está na necessidade desse trabalho para o desenvolvimento de medidas de prevenção e cura de doenças causadas por microorganismos. "O cientista, se bem preparado, tem a obrigação de desenvolver pesquisas que repercutam para o bem da sociedade", defende Paolo Zanotto, professor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. "A pesquisa nessa área jamais é feita de forma desregulamentada. O que existem são programas de pesquisa analisados e acompanhados pelas agências de financiamento", completa.

É claro que os resultados de uma pesquisa não são sempre previsíveis, e nem é possível haver total controle sobre os usos que serão feitos de uma tecnologia desenvolvida com a melhor das intenções Mas a pesquisa para a manipulação de agentes para seu uso militar é cara e não é feita da noite para o dia.

Monteleone considera que armas biológicas químicas com poder de destruição em massa só foram desenvolvidas por Estados, através de programas envolvendo os setores militares e técnico-científicos. "Por outro lado os artefatos químicos ou biológicos são característicos de atores não-Estatais ou terroristas". Os artefatos são recipientes contendo o agente, mas sem mecanismo eficaz de dispersão, o que diminui sua utilidade como arma embora não comprometa seu impacto psicológico.

As cartas com antraz enviadas nos EUA em 2001, por exemplo, criaram pânico entre a população, mesmo contaminando não mais que 18 pessoas e fazendo cinco vítimas fatais.

 

Potencializando os efeitos

O ataque de gás sarin no metrô de Tóquio em 1995, organizado pela seita Aum Shinrikyo (Verdade Suprema) provocou 12 mortes e intoxicou milhares de passageiros. O gás sarin paralisa os sistemas nervoso e respiratório e é um dos agentes nervosos descritos na Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas.

A convenção, aberta para assinatura em 1993 e em vigor desde 1997, proíbe o desenvolvimento, produção, estocagem, posse, aquisição e transferência e o uso de agentes de guerra química. São consideradas armas químicas os químicos tóxicos ("qualquer substância química que, através de seu efeito químico em processos vitais, possa causar a morte, perda temporária de atividade ou lesão permanente em pessoas e animais"). O último registro de armas químicas em conflitos ocorreu durante a guerra entre o Irã e o Iraque, na década de 1980.

Já agentes incendiários como o napalm, por exemplo, não são considerados armas químicas porque seu efeito ocorre por energia térmica. O napalm é uma goma herbicida obtida com gasolina gelificada, desenvolvida pelos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial e muito utilizada pelo país nas guerras contra a Coréia e o Iraque. Segundo o governo americano, a substância não é mais utilizada pelo país desde a década de 1970, e todo o estoque foi destruído em 2001.

Utilizado como desfolhante, o napalm tem diversos efeitos em seres humanos: câncer dos pulmões e da próstata, doenças da pele, do cérebro e dos sistemas nervoso, respiratório e circulatório, cegueira e diversas anomalias no parto.

Durante a guerra do Vietnã, foi desenvolvida uma outra versão, o napalm B, que permanecia aderido aos alvos enquanto que se processa a sua queima. Por que aprimorar a eficácia de uma substância já destrutiva?

Para Zanotto, "é muito difícil imaginar um cientista intencionalmente querendo fazer o mal, mesmo se a tecnologia que ele desenvolve possa ser usada para fazer o mal a alguém, como é o caso do desenvolvimento de armas. A pessoa que desenvolve um novo foguete está pensando em termos de defesa do país dele".

 

Nem boa, nem má

Zanotto afirma ainda que "A tecnologia em si não é boa nem é má, a diferença está no uso que é feito dela". É preciso então lembrar ainda mais uma complicação – nem todo agente usado como arma química ou biológica nasceu de uma pesquisa destinada à criação de armas, e cada agente possui mais propriedades que sua característica-vilã.

"A ciência, em muitos casos de descobertas ou invenções, ocorre de forma aleatória", afirma Mabel de Medeiros Rodrigues, professora do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo.

Mabel é autora do artigo "Armas químicas e efeito Janus" (www.moderna.com.br/moderna/quimica/quimica_am/qmoderna), que conta a história da descoberta acidental, durante a II Guerra Mundial, de propriedades do gás mostarda (substância venenosa utilizada como arma de guerra) que poderiam ajudar no tratamento da leucemia e da doença de Hodkins, após um médico atender marinheiros expostos a um vazamento do gás.

A dualidade fica evidente na análise que Popov faz de seu trabalho: "Participei em diversos projetos relacionados a armas biológicas que eram cientificamente desafiadores e contribuíram para a compreensão de patogenias, e lamento que isso também tenha contribuído para o desenvolvimento de novas armas".